terça-feira, 19 de setembro de 2017

COMO NOSSOS PAIS


Antonio Carlos Egypto




COMO NOSSOS PAIS.  Brasil, 2017.  Direção: Laís Bodansky.  Com Maria Ribeiro, Clarice Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner.  102 min.



O principal vencedor do 45º. Festival de Gramado é o novo trabalho de Laís Bodansky, “Como Nossos Pais”.  O filme é muito competente, tem grande capacidade de comunicação com o público, merece ser conhecido e apreciado.

A abordagem é de cunho familiar: todas aquelas questões que dizem respeito às relações conjugais, às crises do casamento, às insatisfações, aos ciúmes, às relações com os pais e com os filhos, às histórias que ficaram no passado e que irrompem quando menos se espera.  O que ficou guardado por muito tempo, o que é insinuado e não dito, a busca por verdade no convívio.  Enfim, um painel bastante amplo, que possibilita uma identificação fácil com uma plateia de classe média urbana, nos dias de hoje.

O filme trabalha essas relações sob a perspectiva de gênero, a partir de fortes personagens femininas.  Rosa, em grande interpretação de Maria Ribeiro, e sua mãe Clarice (Clarice Abujamra) enfrentam os desafios de ser mulher, as pressões e vicissitudes da vida, em momentos diferentes de nossa história recente, e se enfrentam.  Elas conduzem toda a trama.  Seus conflitos trazem à tona a complexidade da luta feminina.




Pontos fortes do trabalho são o roteiro de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi, os personagens consistentemente concebidos, sobretudo os femininos, e as atuações do elenco.  Os diálogos são muito ricos, reveladores da dinâmica dos problemas, e bem humorados.  Por falar em bom humor, Jorge Mautner realiza, no papel de Homero, um dos mais bem compostos e engraçados personagens da recente safra do nosso cinema.  Esse pai lunático, completamente fora da realidade, mas cheio de sinuosidades e de amor para dar, é absolutamente cativante.

“Como Nossos Pais” é um drama, mas que nos faz rir em muitas oportunidades.  Não só quando está em cena Jorge Mautner, mas em muitas situações em que a ironia se faz bem presente.  As incoerências que todos temos falam mais alto e provocam aquela identificação com os personagens que acaba por nos envolver intensamente no realismo dos relacionamentos familiares que marca a trama do filme.  E, claro, produz reflexão de boa qualidade.

A diretora Laís Bodansky já tem um trabalho sólido no cinema brasileiro, com destaque para “Bicho de Sete Cabeças”, de 2000.  Aqui, ela reafirma suas qualidades como cineasta.





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BINGO, O REI DAS MANHÃS


Antonio Carlos Egypto




BINGO, O REI DAS MANHÃS.  Brasil, 2016.  Direção: Daniel Rezende.  Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Augusto Madeira, Emanuelle Araújo, Ana Lúcia Torre.  113 min.


“Bingo, o Rei das Manhãs” foi escolhido para representar o Brasil em pelo menos duas premiações internacionais importantes: o Oscar de filme estrangeiro e o Goya, espanhol.

Trata-se, de fato, de uma produção muito bem cuidada, com ótimo elenco e um personagem central que surpreende totalmente.  Afinal, Bingo é inspirado na história do palhaço Bozo, que alcançou uma das maiores audiências das manhãs televisivas, nos anos 1980.  Ou melhor, é inspirado na vida do ator e apresentador Arlindo Barreto, um dos principais intérpretes do palhaço Bozo e que se tornou, na época, o anônimo mais famoso do Brasil.  A identidade do palhaço não podia ser revelada, cláusula pétrea de contrato, e ele se apresentava totalmente produzido, mascarado, irreconhecível.

O assunto, a princípio, parece pouco atraente.  Por que o palhaço que protagonizava o programa infantil de grande sucesso na TV mereceria tanta atenção?  O que funciona bem no filme é justamente mostrar o avesso do avesso, como dizia Caetano Veloso em sua canção.

O ator que encarnava Bingo vinha de uma experiência com filmes pornô, tinha um comportamento promíscuo na vida sexual e era chegado tanto a um uísque quanto a uma carreirinha de cocaína.  Certamente não parece o perfil mais apropriado para representar o palhaço mais amado pelas crianças.

É justamente desse contraste que o filme “Bingo” extrai algumas de suas melhores cenas.  É pela sacanagem por trás do palhaço que ele funciona melhor no papel.  Sem papas na língua, sem moralismos, sem se intimidar ou pretender ser sempre bonzinho.  Em vez da caretice proposta pela marca, o improviso e a criatividade, nada ingênuos, tratando as crianças sem infantilismo ou frescura.  Sucesso total, com direito a Gretchen dançando sensualmente Conga, Conga, na atração infantil.




Essa história é bem desenvolvida no filme pelo diretor Daniel Rezende, com um roteiro muito bem engendradro, por Luiz Bolognesi (que também está, com Laís Bodansky, em “Como Nossos Pais”, em cartaz).  O principal destaque do elenco é, naturalmente, Vladimir Brichta, muito convincente como Bingo, mas Leandra Leal e Augusto Madeira têm um peso importantíssimo no filme.  Todo o elenco está bem afinado e até as participações especiais de Domingos Montagnier e Pedro Bial contribuem para chamar a atenção para a produção.

“Bingo” mostra uma boa capacidade de comunicação com o público, um atributo algumas vezes negligenciado pelo nosso cinema autoral.  Não nivela por baixo, como muitas vezes acontece com as comédidas televisivas que podem alcançar grande público nos cinemas.  É um trabalho equilibrado, que merece mesmo atenção. 

Se desta vez o cinema brasileiro será notado, ou terá algum destaque nas premiações em que o filme está envolvido, é uma outra história.  Se desta vez se fez a melhor escolha para nos representar no Oscar, não sei.  Mas que “Bingo, o Rei das Manhãs” tem muitos méritos, não tenho dúvida.






quarta-feira, 13 de setembro de 2017

NA PRAIA, À NOITE, SOZINHA


Antonio Carlos Egypto




NA PRAIA, À NOITE, SOZINHA (Bamui Haebyun-eoseo Honja).  Coreia do Sul, 2017.  Direção e roteiro: Hong Sang-soo.  Com Kim Minhee, Seo Younghwa, Jung Jaeyoung, Moon Sungkeun.  101 min.


O cinema do sul coreano Hong Sang-soo é ousado, na medida em que ele se permite mostrar cenas e personagens em que, aparentemente, nada acontece e nem se pode dizer que conversem sobre questões profundas.  Além disso, comem e, principalmente, bebem quase todo o tempo, em volta de mesas de conversa, que muitas vezes descambam para o descontrole, motivado certamente pelo consumo do álcool.

No entanto, é um cinema original, cheio de vida e de verdade, de pessoas e situações banais, mas autênticas.  Por que mostrá-las, se não são heróis, figuras extraordinárias, grandes pensadores, filósofos, ou gente revolucionária que, com sua ação, mudam o mundo?  Ou, ainda, que sejam capazes de descobrir o sentido da vida?  Porque a vida é feita assim, de momentos felizes, rotineiros, agradáveis ou incômodos.  E não é isso que se vê todo dia?

A atriz Younghee, personagem de “Na Praia, à Noite, Sozinha”, é bem sucedida no seu trabalho, mas ainda não se encontrou, não sabe direito quem é, o que quer, onde seria bom morar, se vale a pena investir numa relação amorosa, da qual ela duvida, e muitas vezes não tem paciência nos relacionamentos que mantém com amigos e parentes.  Vive uma questão existencial, que esbarra nas pequenas coisas do cotidiano e na falta de um projeto de vida que a impulsione para algum lugar.




Enfrenta, portanto, os aborrecimentos decorrentes dessa condição, as tentativas um tanto toscas de resolver suas pendências, o incômodo tanto da solidão como do convívio social, que não constroem nada de muito concreto.

O filme se torna, assim, melancólico, como sua protagonista.  Hong Sang-soo mantém o clima leve das cenas que vimos em outros belos trabalhos dele, como “HaHaHa”, de 2010, “A Filha de Ninguém”, de 2013, e “Certo Agora, Errado Antes”, de 2015, mas a insatisfação pesa mais aqui.  Pode haver lances patéticos, mas a perda de rumo não chega a ser uma coisa divertida.  A falta de um horizonte acaba se transformando em angústia, deixando no ar decisões importantes que, na verdade, não podem ser tomadas.

Tudo isso se deduz a partir de cenas e sequências que apenas mostram pequenos incômodos ou problemas, ao lado de uma dificuldade atávica para lidar com eles.  Ou de lhes dar a importância que, de fato, eles têm.  Na base de tudo, a necessidade e a falta do amor.  E também uma certa incapacidade de buscá-lo, de lutar por ele.


“Na Praia, à Noite, Sozinha” é o filme de abertura do INDIE 2017 e, assim como outros títulos do festival, será lançado nos cinemas mais adiante.


INDIE 2017


Antonio Carlos Egypto


Acontece agora, de 13 a 20 de setembro em São Paulo e de 20 a 27 de setembro em Belo Horizonte, o importante festival internacional de cinema independente mundial  INDIE 2017, que já está em seu 17º. ano de existência. 

Trata-se de uma mostra mundial do cinema contemporâneo, que prioriza nesta edição produções autorais de uma nova geração de realizadores.  Serão 43 filmes de 15 países, sendo 16 da produção atual do cinema independente.  Há uma retrospectiva do trabalho do cineasta Philippe Garrel, que faz um cinema bonito e sofisticado, artisticamente, com lances experimentais.  Vale a pena conhecê-lo melhor.



Filmes clássicos restaurados também serão exibidos.  Vejam os títulos: A BELA DA TARDE, de Buñuel, O ACOSSADO, de Godard, STROMBOLI, de Rossellini, A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM, de Mike Nichols, e MULHOLLAND DRIVE: A CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch.

O INDIE 2017 é realizado pela Zeta Filmes, SESC-SP e MG, e ocorrerá em
São Paulo no Cinesesc e no Espaço Itaú de Cinema Augusta – sala 4.  O preço dos ingressos é acessível.  A inteira custa R$12,00 no Cinesesc e R$20,00, no Itaú Augusta.  E, em Belo Horizonte, haverá entrada franca, com ingressos disponíveis 30 minutos antes de cada sessão.


É uma oportunidade de usufruir de um cinema de boa qualidade, que alcança diversas partes do globo, e de realizadores inquietos e inovadores, alguns já conhecidos dos cinéfilos paulistanos.



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

GLORY


Antonio Carlos Egypto




GLORY (Glory).  Bulgária, 2016.  Direção e roteiro: Kristina Groseva e Petar Valchanov.  Com Margita Gosheva, Stefan Denolyubov, Ivan Savov.  111 min.


Quem viu o filme búlgaro “A Lição”, de 2014, certamente se lembrará da atriz Margita Gosheva, que protagoniza agora “Glory”.  Talentosa e muito charmosa, essa atriz domina a cena quando está nela.  Só para ver seu desempenho se justificaria uma ida ao cinema.  Mas há muito mais a ver em “Glory”.  A dupla de diretores, Kristina Groseva e Petar Valchanov, que são também roteiristas do filme, já tinha mostrado a que veio, no mesmo “A Lição”.  Supostamente, trata-se de uma trilogia, em que “Glory” seria o segundo exemplar.  Mais uma vez, a mão firme da dupla explora um dilema moral.  Desta vez, com mais humor e abordando o papel das autoridades públicas.

Aqui, um humilde trabalhador ferroviário, Tsanko (Stefan Denolyubov), que responde pela manutenção de linhas de trem, encontra em sua ronda muito dinheiro jogado por lá e, honesto que é, devolve a grana.

Em paralelo, ficamos sabendo da corrupção nas altas esferas do Ministério dos Transportes do governo búlgaro, coisa que também é do conhecimento de Tsanko.  Mas ele nunca teve a oportunidade de falar disso a ninguém.  Até o dia em que o próprio ministro lhe entrega um prêmio pelo gesto de honestidade que Tsanko cometeu.




Uma alta figura do ministério, Júlia (Margita Gosheva), é quem vai lidar com o funcionário,   que, além de humilde, é aparentemente retardado, pois tem muita dificuldade de se expressar, gagueja muito.  E um prosaico relógio de pulso funciona como prêmio e como castigo.

Esses personagens e essa situação dão margem a cenas que, o tempo todo, nos provocam e nos fazem pensar.  Mostram como as elites dirigentes se colocam e como lidam com os mais simples, mais pobres ou que apresentam limitações.  O poder corrompe, como se sabe, mas também dessensibiliza, desumaniza as pessoas que, via de regra, desconhecem completamente o sentido do serviço público.  O que menos lhes interessa é servir ao povo, educá-lo, promovê-lo, cuidar de sua saúde e de suas necessidades.  O que vale hoje é a aparência, o marketing cuidadosamente montado para enganar, iludir a população.

“Glory” trata dessas questões, numa trama bem montada, contada linearmente, mas de forma envolvente.  São aspectos humanos relevantes os que estão sendo mostrados.  Quem tem sensibilidade, não vai ficar indiferente.  Não é um filme que prega verdades, nem promove julgamentos, mas os fatos que compõem a narrativa falam por si.

Margita Gosheva, a professora que vive a saia justa do dilema moral de “A Lição” e nos conquista, aqui expõe com ênfase a falta de atenção e respeito com o cidadão, o narcisismo e a dureza, numa vida marcada pelo compromisso e agitação contemporâneos.  Um papel quase oposto ao da professora, igualmente muito bem desenvolvido.




O restante do elenco também está bem, especialmente o protagonista Stefan Denolyubov, cujo papel exige dele muito empenho e modulação precisa, para ser convincente. 

Que venha, portanto, o terceiro filme da trilogia, porque até aqui Kristina Groseva e Petar Valchanov mostraram que, na Bulgária, pode-se fazer muito bom cinema.  Pena que não tenham chegado até o circuito cinematográfico brasileiro outros realizadores de lá.


Quem não se lembra de “A Lição” pode conferir no cinema com recheio a crítica do filme, postada em junho de 2015.



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

FÉRIAS DE CINEMA


Antonio Carlos Egypto


Tirei um mês de férias para viajar.  Estive em várias cidades da Itália e Portugal.  Foi um período em que não entrei no cinema, não vi nenhum filme, nem na TV, nem mesmo no avião.  Mas a paixão pelo cinema não ficou para trás, ao contrário, esteve presente na viagem, com frequência. 

Para começar por Roma, que eu só tinha visitado uma vez há trinta anos, que só de ver aquelas motos tipo lambreta por todo o lado me fizeram lembrar de muitos filmes italianos, em especial, “Meu Caro Diário”, do Nani Moretti. 




A Fontana di Trevi,  imortalizada por “A Doce Vida” de Fellini, que eu revi agora, estava tão cheia de gente que não restou clima possível para interagir com aquela beleza toda.  Mas, enfim, ela continua lá, clicada milhares de vezes a cada segundo.

Melhor foi o passeio à Cinecittà,  muito menos concorrido e cheio de alusões a objetos e filmes fellinianos, com uma ótima exposição histórica do cinema italiano e mundial, seus ícones e filmes representativos, e uma caminhada entre grandes espaços cenográficos, como os que buscaram retratar a Roma antiga, do seriado homônimo.







Em Bolonha, vi uma exposição de fotos e filmes da cidade, no passado e no presente, realizada pela Cinemateca de lá, muito atuante, mas em período de férias, sem programação naquele momento.  Ainda assim, pude conversar com duas funcionárias de lá e apreciar o amplo e antigo prédio em que está hospedada a Cineteca Bologna.

Estando em Bolonha, não poderia deixar de ir conhecer Rímini, a cidade natal do mestre Fellini, à beira-mar.  Lá, naturalmente, tem o parque Fellini, a rua Giuliettta Masina e a tumba onde estão enterrados ambos e o filho que tiveram, que teve só um mês de vida. Um belo monumento que pode ser visto no cemitério de Rímini e foi inspirado em “E La Nave Va”.  Valeu muito a visita à cidade, mesmo com a casa-museu de Fellini fechada, para reformulações e ampliações.




Em Milão, numa visita ao teatro La Scala, encontrei referências e postais do trabalho de Luchino Visconti na ópera e o legado do cineasta sendo lembrado e valorizado.

Em Turim, surpreende pela grandiosidade o Museu Nacional do Cinema, situado no centro histórico da cidade, na Mole Antonelliana, construção que remonta a 1863 e foi  reconstruída em 1961, para celebrar o centenário da unificação italiana, ganhou uma cúspide e um elevador panorâmico, que alcança o ponto mais alto da cidade, creio, de onde se podem tirar fotos que exibem o conjunto urbano de Turim.  Em vários andares, se visita a história do cinema, desde os seus primórdios até os diversos movimentos e gêneros cinematográficos, nesse edifício para lá de imponente.  Foi uma bela surpresa.




Em Lisboa, fui à procura de DVDs de cinema português, em especial, de filmes de Manoel de Oliveira não lançados por aqui.  Agora espero superar a barreira do código de zona europeu, para poder vê-los ou revê-los.


Como perceberam, quando me afasto do cinema é que ele chega ainda mais perto.  Mas estava mesmo na hora de voltar a frequentar a tela grande e refletir sobre as imagens que ela nos traz, deixando para trás o tórrido verão europeu.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

COMENTÁRIOS RÁPIDOS SOBRE FILMES EM CARTAZ


Antonio Carlos Egypto


AFTERIMAGE

AFTERIMAGE, último filme do grande diretor polonês Andrej Wajda (1926-2016), relata a ignominiosa perseguição do regime stalinista polonês ao pintor modernista, Wladyslaw Strzeminski (1893-1952), que, além do grande talento que possuía, era um teórico e um professor brilhante, mesmo mutilado.  Não tinha uma perna e um braço.  Seu conceito de imagem residual  é ao que se refere o título do filme, que não tinha por que estar em inglês. Quando uma verdade é instituída pelo Estado ou por uma instituição poderosa, dessas que podem torturar e decidir pela vida ou pela morte de alguém, a arte sucumbe à opressão, até que o regime caia.  Não sem resistência, claro.  Isso vale para o stalinismo soviético, ditaduras de direita, como as de Pinochet e as militares do Brasil e da Argentina, ou a Inquisição católica, por exemplo.  Mais um tiro certeiro do mestre Wajda, esse filme polonês é uma ótima pedida.  Pena que tenha sido o último dele.




ESTEROS

ESTEROS, dirigido pelo cineasta argentino, estreante em longas, Papu Curotto, é coprodução Brasil-Argentina, que trata do desejo e do relacionamento homoeróticos entre dois personagens, Matias (Ignacio Rogers) e Jerônimo (Esteban Masturini), na infância e adolescência, os caminhos separados em que viveram longe um do outro e o reencontro, após dez anos, na mesma pequena cidade argentina de Paso de los Libres.  Agora eles são bem diferentes do que no passado, mas o sentimento renasce e conflitos emergem.  Trabalho sensível, respeitoso e delicado, sobre a temática LGBT. Premiado no Festival de Gramado 2016 pelo júri e pelo público.



FALA COMIGO

FALA COMIGO, filme brasileiro de Felipe Sholl, primeiro longa dele, tem uma ótima pegada, ao tratar do tema do envolvimento amoroso numa diferença de idade abissal.  Diogo (Tom Karabachian), de 17 anos, se apaixona por Ângela (Karine Teles), de 43 anos, paciente de sua mãe psicanalista, Clarice (Denise Fraga), e é correspondido.  Eles vivem uma experiência amorosa genuína, em que pesem as recriminações da sociedade.  Denise Fraga encarna a psicanalista que fica na defensiva em relação à vida do filho e à sua própria, tentando não perder a pose e nem se abalar. Em vão.  O filme ainda está em cartaz, em algumas salas e em poucos horários, em algumas cidades.  Mas também pode ser assistido no sistema vídeo on demand.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O FILME DA MINHA VIDA


Antonio Carlos Egypto





O FILME DA MINHA VIDA.  Brasil, 2016.  Direção: Selton Mello.  Com Johnny Massaro, Vincent Cassel, Bruna Linzmeyer, Ondina Clais, Bia Arantes, Selton Mello.  113 min.


O escritor chileno Antonio Skármeta já teve um texto adaptado para o cinema, que alcançou grande sucesso, “O Carteiro e o Poeta”, dirigido por Michael Radford, em 1996.  Arrisco afirmar que “O Filme da Minha Vida”, de Selton Mello, adaptando a obra de Skármeta Um Pai de Cinema,  possa repetir o feito.  É um filme que lida com o público de modo terno, afetivo e lírico.  Traz para o cinema o clima poético e nostálgico do texto de Skármeta, acrescentando-lhe novos personagens e situações e fazendo novos elos que tornam a trama mais clara e compreensível, sem resvalar no melodrama ou nas soluções fáceis.  E sem perder o clima de mistério, deixando um caminho para o espectador percorrer, que vai além das imagens e, portanto, também além do texto original.

O que Selton Mello fez foi uma adaptação literária, mas de um modo muito pessoal, colocando-se no protagonista e no seu contexto de época.  Ao transportar a trama das serras chilenas para as serras gaúchas, ele manteve o espírito interiorano da história, com seus limites, mas ressaltou o sonho dos personagens, envolvendo-os com referências brasileiras, mantendo e dando cor local à bela homenagem ao cinema que o texto de Skármeta faz.




Em “O Palhaço”, de 2010, Selton Mello, um dos grandes atores da sua geração, encontrou seu caminho também como cineasta.  Mostrou-se capaz de lidar com emoções de forma intensa, mas equilibrada.  Buscou comunicar-se com um público amplo, usando o humor, homenageando a cultura popular, inclusive televisiva, sem adotar seu modelo simplista e popularesco.  Ele mantém esse espírito em “O Filme da Minha Vida”, onde também dirige e atua simultaneamente, além de ser roteirista, ao lado de Marcelo Vindicatto.  O filme tem a cara de Selton Mello.  Já é reconhecível sua autoria neste terceiro longa.

A fotografia, a cargo de Walter Carvalho, que tantas contribuições tem dado ao cinema brasileiro, é lindíssima, nos seus tons marrons e amarelados ressalta a luminosidade da serra  e que, sob névoa ou luz baixa, nos conduz ao clima frio serrano e aos anos 1960, em que se situa a história, na hipotética cidade de Remanso.  Na verdade, as filmagens ocorreram em sete cidades diferentes, na região de Garibaldi.

O filme é recheado de boa música daquele período histórico, com ênfase em canções francesas, já que o protagonista Tony Terranova (Johnny Massaro) também dá aulas de francês para sua turma de alunos e é filho de um francês, Nicolas, papel do conhecido ator Vincent Cassel, agora vivendo no Rio de Janeiro.  Nem por isso deixa de soar estranho ouvir My Way em versão francesa.  Outra estranheza é ouvir a seminal Rock Around the Clock, de Bill Haley, em versão nacional.  Estranhezas à parte, é fácil sair cantarolando do cinema.  Coração de Papel, de Sérgio Reis, é um dos hits em destaque.  E de Charles Aznavour Hier Encore.




A história remete à busca de um pai que abandonou misteriosamente mulher e filho para voltar a viver na França e esqueceu-se da família.  Mas essa versão faz sofrer e não convence.  O que estará por trás disso?  O jovem personagem Tony, enquanto busca saber do pai, vai construindo uma vida como professor de província, lidando com a demanda sexual dos alunos pré-adolescentes e da sua própria demanda amorosa e sexual, ele, recém-saído da adolescência.  Os meninos personagens dão margem a cenas fascinantes e divertidas.  Já com a mãe Sofia (Ondina Clais) há afeto, mas a tristeza da perda marca a relação.  As jovens Luna (Bruna Linzmeyer) que encanta Tony com seu jeito meio maluquinho, e sua irmã, Petra (Bia Arantes) têm papel decisivo no desenrolar da narrativa.  Assim como o manipulador Paco, o papel de Selton Mello no filme. É um senhor elenco de atores e atrizes que mergulham intensamente em seus personagens, revelando que Selton é um ótimo diretor de atores.  O que, afinal, não surpreende, com a cancha de representar que ele tem.

Duas participações especiais merecem destaque. Rolando Boldrin faz um maquinista de trem, personagem criado por Selton para o filme, especialmente para ser vivido por ele.  Antonio Skármeta também atua numa ponta e contracena com Selton Mello, reunindo, assim, os autores de uma bela narrativa, tanto literária quanto cinematográfica.




domingo, 30 de julho de 2017

BYE BYE ALEMANHA


Antonio Carlos Egypto





BYE BYE ALEMANHA (Es War Einmal in Deutschland)Alemanha, 2016.  Direção e roteiro: Sam Garbarski.  Com Moritz Bleibtreu, Antje Traue, Mark Ivanir, Anatole Taubman, Hans Löw.  101 min.



Os judeus alemães, que conseguiram sobreviver ao regime nazista, logo após a Guerra têm um sonho comum: abandonar a Alemanha e partir para os Estados Unidos.  É o caso de David Bermann (Moritz Bleibtreu) e seus amigos, em Frankfurt, em 1946.  Com um negócio de família de venda de roupa fina para os alemães, já é possível obter o dinheiro para a viagem, e o visto para a América é quase automático na situação dele.  Porém, ao examinar seus documentos e vasculhar seu passado recente, a oficial americana Sara Simon (Antje Traue) resolve investigar melhor e encontra coisas suspeitas.

O filme “Bye Bye Alemanha”, do diretor Sam Garbarski, conta a história desse personagem da vida real, do que ele relata e do que ele esconde, e vamos descobrindo uma personalidade cheia de nuances e jogo de cintura, que explicam sua sobrevivência.  David tem também uma malandragem e uma vivacidade intelectual que, certamente, contam muito em situações extremas.  Basta dizer que um dos elementos centrais nessa história é sua capacidade de contar piadas, nos momentos e situações mais improváveis.  E o humor salva.




A trama é muito boa e muito bem contada, pelo cineasta que já nos deu dois bons filmes antes: “Irina Palm”, em 2007, e “O Tango de Rashevski”, em 2003.  Seu estilo de narrar é tradicional e popular.  Comunicativo e bem humorado, geralmente abordando temas bem sérios, como é o caso aqui.

O ator alemão Moritz Bleibtreu é talentoso e compõe muito bem o tipo retratado no filme.  Ainda assim, não sei se seria a melhor escolha para o papel.  Para um personagem que conta piadas, ele é discreto demais.  Ele optou por uma interpretação contida, considerando o contexto, mas acredito que tenha exagerado um pouco na dose.

A personagem de Sara também comportaria mais expansividade.  Ela enfatiza mais as suspeitas em relação ao personagem do que o acolhimento e o direito de considerar-se uma pessoa inocente até prova em contrário, na maior parte do filme. 




“Bye Bye Alemanha” traz uma boa caracterização de época, incluindo uma fotografia que, em tons sépia, cinza e ambientação escurecida, nos remete ao passado, e um passado nada glorioso.  Não fosse o tom bem humorado da realização, poderia resultar em um filme pesado.  Não é o caso.  Esse é um dos méritos de “Bye Bye Alemanha”: tratar com respeito, mas sem muita dramaticidade, de um assunto grave.  E por um ângulo inesperado, como verá quem for assistir ao filme.

“Bye Bye Alemanha” é o filme de abertura e faz parte do 21º. Festival de Cinema Judaico, tradicionalmente promovido pela Hebraica - São Paulo.  O festival, que vai de 30 de julho a 09 de agosto, estará em 2017 também no Cinesesc, MIS, Cinemark Pátio Higienópolis, Teatro Eva Hertz, da Livraria Cultura, e Casa das Rosas.  São 24 produções,  entre ficção e documentário, sendo 19 inéditas, de diversos países, com foco nas questões judaicas, de modo amplo. 





sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Reencontro


TATIANA BABADOBULOS


O REENCONTRO (La Sage Femme). França, 2017. Direção: Martin Provost. Roteiro: Martin Provost e Céline Breuil-Japy. Com: Catherine Frot, Catherine Deneuve e Olivier Gourmet. 117 min.




É com uma sequência de um parto que inicia "O Reencontro" ("La Sage Femme"), longa-metragem francês que traz duas Catherine no elenco: a Frot e a Deneuve. Outros partos estarão na tela para ilustrar a profissão de Claire, a parteira vivida por Frot. Ela ama o que faz e ajuda, de forma maternal e ao mesmo tempo profissional, as mulheres grávidas darem à luz.

Porém, a satisfação na clínica em que atua chega ao fim quando recebe a notícia de que ela vai fechar e ceder o espaço aos "hospitais modernos", que pouco se importam com a natureza do parto e estão mais preocupados com o dinheiro que eles rendem.

O nome original do longa, “La Sage Femme”, significa “obstetriz”, mas também pode ser um trocadilho no idioma de Molière. “Sage femme” quer dizer mulher sábia, o que cai perfeitamente para a personagem criada pelo diretor e autor do roteiro Martin Provost.



Não é sempre que o distribuidor brasileiro acerta no nome da adaptação, principalmente quando resolve mudar completamente o nome e não apenas traduzi-lo literalmente –caso deste longa. No Brasil, não funcionaria um filme com o título "Obstetriz". Nada contra o ofício, ao contrário, mas não é um nome forte o bastante para despertar interesse do público –talvez o fosse caso se tratasse de um documentário sobre a jornada de uma parteira, sei lá.

Mas não é o caso e aqui a adaptação do nome é feliz. O longa trata justamente do reencontro das duas personagens centrais, vividas pelas duas Catherine. Claire (Frot), a parteira, ao chegar em casa após mais um dia exaustivo de trabalho, recebe a ligação de Béatrice (Deneuve), ex-mulher de seu pai, que desapareceu havia 30 anos, pedindo para se verem. A contragosto, Claire vai ao seu encontro e recebe uma péssima notícia.



Enquanto Claire é organizada e responsável, Béatrice, que tem um diagnóstico de saúde nada bom, fuma, bebe e joga (e perde) rios de dinheiro. Comportamentos contrários tão previsíveis como a fábula da "Formiga e da Cigarra".

E é enquanto tenta se entender e ajudar a ex-madrasta que Claire conhece Paul (Olivier Gourmet), um caminhoneiro internacional, capaz de despertar os desejos da mulher que estavam enterrados há muito. É quando ela deixa um pouco de lado sua vida de "caxias" para aproveitar e brindar "à la vie".

As interpretações são um verdadeiro deleite. Embora as personagens estejam se reencontrando, este foi o primeiro encontro das duas atrizes: elas nunca haviam trabalhado juntas. Provost explica, no material de divulgação para a imprensa, que escreveu os papéis pensando nas respectivas atrizes. E elas responderam muito bem a missão.


A trama, inspirada no nascimento do realizador (não por completo, mas apenas alguns detalhes), vai bem e é capaz de emocionar o espectador. O fim, porém, é um tanto moralista, segue a fábula e não surpreende. De qualquer maneira, “O Reencontro” é um filme que homenageia as parteiras e inspira o espectador a valorizar cada vez mais a vida, dia após dia.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

DUNKIRK


Antonio Carlos Egypto




DUNKIRK (Dunkirk).  Estados Unidos, 2016.  Direção e Roteiro: Christopher Nolan.  Com Tom Hardy, Mark Rylance, Harry Styles, Kenneth Branagh, Cillian Murphy.  120 min. 



1940.  Batalha de Dunquerque, na Segunda Guerra Mundial.  Dunquerque (ou Dunkirk) é uma cidade portuária no norte da França, na região de Calais, fronteira com a Bélgica.  A ligação Calais-Dover une por ferry boat a França à Inglaterra.

Foi lá que se travou uma heróica batalha, não pela vitória das forças aliadas contra o Eixo, mas de sobrevivência em situação quase impossível.  Uma enorme força britânica, francesa e belga, foi encurralada pelos inimigos alemães, que capturaram Calais e avançavam por terra, sitiando essas tropas e expondo-as em plena praia, sob pesado ataque aéreo e marítimo.  No entanto, mesmo nessas condições, mais de 300 mil soldados conseguiram ser resgatados por via marítima, contando também com apoio civil, na operação Dynamo, comandada a partir de Dover, na Inglaterra.  Isso se deu no período de 25 de maio a 04 de junho de 1940, antes de os Estados Unidos entrarem na guerra.  Teria sido um autêntico milagre, segundo De Gaulle.




Pois bem, é dessa batalha que trata o filme “Dunkirk”, de Chistopher Nolan, um espetáculo grandioso, que merece ser visto na tela Imax do cinema, com um som arrasador.  Há quem não goste, se sinta até incomodado pelo exagero dos efeitos, sobretudo sonoros.  Mas que é um senhor espetáculo, é.  Um filme de guerra que nos coloca dentro das ações, por terra, mar e ar, de forma intensa e, nos três níveis, com diferentes protagonistas.  Harmonizando, também, os diversos tempos das três situações abordadas.

Ao lado disso, grandes panorâmicas descortinam o ambiente, embora não consigam dar a dimensão das centenas de milhares de soldados envolvidos naquela circunstância da guerra.

Os dramas individuais pela sobrevivência e a luta pelo resgate dos combatentes se destacam na narrativa, enquanto a produção e todos os efeitos fazem uma imersão fantástica do público, nos momentos dramáticos das batalhas.  Mergulhamos com os navios que afundam, os aviões que são abatidos ou que alvejam o inimigo, subimos às embarcações escapando do tiroteio, nos enlameamos com o óleo do mar e nos espantamos com o mar pegando fogo.  O espetáculo toma conta e nos envolve, de forma muito competente.  Produção cara, mas que obtém resultados palpáveis.




Não é o melhor cinema que existe, não favorece maior reflexão, mas não é oco.  Tem realismo e história esse belo espetáculo cinematográfico.  Tem grande efeito na telona do cinema.  E o som arrasa-quarteirão se justifica.  Mas é preciso entrar no clima do filme e da guerra.


O elenco, inteiramente masculino, inclui grandes e consagrados atores, que acabam sendo coadjuvantes da dimensão épica do espetáculo, mas tendo seus momentos de destaque nas histórias individuais que compõem a trama.



segunda-feira, 24 de julho de 2017

DE CANÇÃO EM CANÇÃO


Antonio Carlos Egypto




DE CANÇÃO EM CANÇÃO (Song to Song).  Estados Unidos, 2017.  Direção e roteiro: Terrence Malick.  Com Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara, Natalie Portman.  129 min.



Sempre apreciei no diretor Terrence Malick (de “Além da Linha Vermelha”, 1998, “A Árvore da Vida”, 2011, “Amor Pleno”, 2012) o seu cultivo pelo belo.  Seus filmes têm lindas casas, mansões, locações atraentes, natureza exuberante.  Tudo sempre com esmero nos enquadramentos, nos ângulos e movimentos de câmera, em cenas caprichadas, bem feitas.  De modo que se pode apreciar seu trabalho e algo sempre fica.  Por outro lado, sua queda pela questão mística, religiosa, nunca acrescentou nada de relevante, ao menos para mim.

O amor é um dos seus grandes focos, sob diversos matizes, mas o desencontro, a frustração e a solidão aparecem temperadas pelo perdão, pelo recomeço e pela busca de uma autenticidade pessoal.  A pretensão de relacionar essas coisas a um Cosmos, a um Deus, a uma religiosidade, enfim, soa forçada, deslocada.  É preciso ignorá-la um pouco para usufruir dos filmes dele.  A forma é sempre muito mais consistente e sedutora do que o conteúdo ou a mensagem, se pudermos falar assim.




Em “De Canção em Canção”, o cineasta nos leva à cena musical de Austin, no Texas.  Em meio ao frisson dos shows e festivais de música, seus personagens vivem uma busca frenética e bastante atrapalhada de uma utópica liberdade, que é difícil se saber do que se trata, realmente.

As cenas que compõem uma trama esfarelada, rarefeita, são, na verdade, gratuitas, vazias de um sentido que, paradoxalmente, Malick parece sempre buscar.  Uma agitação que não leva a lugar nenhum, com personagens sem força ou suficiente consistência psicológica.  Muita juventude, muita pirotecnia, em cima de quase nada.  Experimentações que se perdem, em meio a muita música, mas muito pouca substância.


Um elenco de astros, atores e atrizes talentosos, acaba um tanto desperdiçado, porque esses personagens escorrem pelo ralo.  Michael Fassbender, Ryan Gosling, Rooney Mara e Natalie Portman, podem servir de chamariz em busca de bilheteria, mas acabam não entregando o que prometem, apesar do empenho físico que põem em cena.  O filme é raso, mas com ambições a profundidade.  Beleza que acaba entediando, porque nem consegue simplesmente divertir.