sábado, 24 de junho de 2017

UM INSTANTE DE AMOR

  
Antonio Carlos Egypto




UM INSTANTE DE AMOR (Mal de Pierres).  França, Bélgica, 2016.  Direção: Nicole Garcia.  Com Marion Cotillard, Louis Garrel, Alex Brendemühl. 120 min.



Distúrbios mentais podem trazer comportamentos extremados, contrastantes e mesmo opostos, na mesma pessoa, como, de um lado, a exacerbação do desejo, de outro, o isolamento, a depressão, ou o binômio agressividade e apatia.  E, ainda, serem recheados de sentimentos persecutórios e a presença de delírios ou alucinações.  Personagens assim costumam ser muito explorados pelos roteiros cinematográficos em filmes de mistério, suspense, fantasia ou terror, mas é menos frequente encontrá-los nas histórias de amor.

A personagem Gabrielle, magnificamente interpretada por Marion Cotillard, em “Um Instante de Amor”, de Nicole Garcia, é uma figura assim, cheia de contrastes e incongruências, com reações que escapam ao seu próprio controle e surpreendem os que com ela convivem.




Os pais dela buscam acalmar seu furor por meio de um casamento arranjado, que vai complicar as coisas, envolvendo um contrato, digamos, alternativo, que colocará em jogo a vida sexual, a questão da gravidez e até mesmo a do aborto. O marido, o pedreiro José, em muito bom desempenho de Alex Brendemühl, entra no jogo, mas mesmo assim sofre consequências inesperadas e doloridas para sua vida.

O destino de Gabrielle acaba sendo um sanatório, que se baseava na cura ou no alívio, proporcionado por águas termais.  A razão desse rumo seriam dores renais, um mal de pedras do título original de Milena Agus, Mal de Pierres, que inspirou “Um Instante de Amor” e que a personagem apresentaria.  Algo como o deslocamento do problema mental para um elemento físico do corpo, este mais possível de admissão e tratamento do que a “loucura”.   Lá, Gabrielle conhece um militar, o tenente André, papel de Louis Garrel, doente em estado terminal.  E dessa relação algo importante surgirá.




O que é objetivo ou subjetivo nessa história acabará sendo a grande questão do filme, uma vez que esses limites estão borrados pelas características da personagem de Gabrielle e de suas circunstâncias.

Uma história de amor inusitada resulta dessa trama e acaba por surpreender o espectador, oferecendo à grande atriz Marion Cotillard uma oportunidade para explorar uma personagem complexa e intrigante.  De Louis Garrel, ao contrário, se exige o minimalismo interpretativo de alguém que já perdeu suas forças, e de Alex Brendemühl, ambiguidade e contenção.  Esse trio de protagonistas é um dos pontos altos do filme.  A personagem Gabrielle e a atriz que lhe dá vida são a razão de ser e sustentáculo de “Um Instante de Amor”.

  

quinta-feira, 15 de junho de 2017

PARIS PODE ESPERAR


Antonio Carlos Egypto




PARIS PODE ESPERAR (Paris Can Wait, EUA, 2016), escrito e dirigido por Eleanor Coppola, esposa de Francis Ford Coppola, é o que se poderia chamar de filme turístico.  Teria sido inspirado por uma viagem curiosa que ela fez. 

A história parte de Cannes, onde Anne (Diane Lane) está com seu marido, o produtor cinematográfico Michael (Alec Baldwin) e ambos devem pegar um voo para voltar a Paris.  Mas como Anne está com problemas no ouvido, o que acaba acontecendo é que ela aceita um convite para viajar de carro até Paris com Jacques (Arnaud Viard), sócio do marido.

Ocorre que nessa viagem nunca chega a vez de Paris.  Eles param em todos os lugares no caminho, desviam da rota, porque, afinal, “Paris Pode Esperar”.  E assim é possível conhecer o interior da França, sua arquitetura, museus, gastronomia.  Enfim, um road-movie em tom de comédia, que funciona como um daqueles filmes turísticos que podem ser encontrados no You Tube, inclusive em 4K, bonitos de ver, mas sem maior consistência narrativa.  Claro que o casal de viajantes acaba por se conhecer, se envolver afetivamente e descobrir coisas novas.  Mas não vai além desse previsível roteiro de filmes de viagem.  92 min.


STEFAN ZWEIG, ADEUS EUROPA


Antonio Carlos Egypto


STEFAN ZWEIG, ADEUS EUROPA.  Alemanha, 2016.  Direção: Maria Schrader.  Com Josef Hader, Barbara Sukowa, Mathias Brandt, Aenne Schwartz. 106 min.





Esta cinebiografia do escritor austríaco Stefan Zweig baseou-se no livro “Morte no Paraíso – A tragédia de Stefan Zweig”, do jornalista brasileiro Alberto Dines.

O filme retrata a vida do escritor e intelectual judeu entre 1936 e 1942, em seu exílio sul-americano no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, na Bahia e em Petrópolis, enquanto o nazismo se solidifica na Alemanha e irrompe a Segunda Guerra Mundial.  Zweig alimentava ideias utópicas de uma Europa unida, pacifista e sem fronteiras nacionais, antevendo o que acabaria sendo buscado pela União Europeia, muitas décadas depois, cujos resultados claudicam na atualidade.

O sofrimento do escritor com o que se passava na Europa era minimizado pelo paraíso tropical que descobriu por aqui, mas que não foi suficiente para impedir seu fim trágico.

O filme adota narrativa clássica convencional, mas tem bons atores e é interessante de se ver.  Passou meteoricamente pelos cinemas de São Paulo.  Mas é possível vê-lo pelo sistema de video on demand, na Now, Vivo Play, Google Play e iTunes.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

FRANTZ


Antonio Carlos Egypto



FRANTZ (Frantz).  França, 2016. Direção e roteiro: François Ozon.  Com Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow, Anton von Lucke, Cyrelle Clair.  113 min.



Alemanha, 1919.  As marcas da Primeira Guerra Mundial, com uma mortandade incrível, são trágicas para as famílias europeias.  Anna (Paula Beer), que vive numa pequena cidade alemã, perdeu seu noivo na guerra, na França.  Ela vai levar flores ao seu túmulo, no cemitério local, regularmente.  Até o dia em que se depara com um jovem francês fazendo o mesmo.  O que significa isso?  Quem é ele, o que está fazendo aqui? 

É bom lembrar que as sequelas do conflito com os franceses alimentam um preconceito contra eles e um desejo de vingança.  A Alemanha se sente humilhada pelo Tratado de Versalhes.  A história pesa, mas Adrien (Pierre Niney) está apenas depositando flores na tumba de Frantz (Anton von Lucke), o soldado alemão que se casaria com Anna se sobrevivesse ao conflito mundial.

Esse é o mote inicial do filme de François Ozon, “Frantz”, e daí vai partir uma incrível história que será tão revolvida a ponto de não restar certeza sobre o que aconteceu, como interpretar e relatar os fatos e se se deve, ou não, procurar uma verdade ali.  Mais: se encontrada essa verdade, ela merece ser revelada?  A quem interessaria saber?




Segundo o próprio diretor, o filme é sobre mentiras, embora também envolva culpa e perdão.  Mentiras que fazem bem, podem até curar feridas.  Destruí-las pode ser arrasador, demolidor.  Mas para alimentá-las também é preciso crer em algo, que pode ser ilusório, embora reconfortante.  Quando entra em cena o envolvimento amoroso, o desejo, a paixão, a realidade se nubla e, afinal, o que é o quê?

O filme se chama “Frantz”, o soldado morto, que só aparece em flash-backs, mas o ponto de vista adotado pelo roteiro é o de Anna.  É a partir do que ela sabe, sente, deseja, e de como ela se move, que a trama acontece e se desenvolve, com nuances de todos os tipos e surpresas que vão emergindo das situações narradas.  Ozon deixa que a nossa imaginação corra solta e tente interpretar o que vê.  As coisas podem ser bem distintas do que a gente pensou.  Ou não.

O diretor optou por um preto e branco luminoso, que dá à trama um realismo que combina perfeitamente com o momento narrado.  Afinal, que imagens temos da Primeira Guerra que não sejam em preto e branco?  É como se caminhássemos naquela pequena cidade e convivêssemos com seus habitantes, em suas roupas austeras, suas casas, bares e cemitério.  Mas há algumas cenas coloridas, que mostram um pouco de felicidade, dão um respiro à situação, fazendo um contraponto dramático mais leve à narrativa.  Podem estar revelando um passado mais afetivo ou, quem sabe, um desejo, fantasia ou imaginação, apenas?




A origem dessa história está numa peça teatral escrita logo após a Primeira Guerra Mundial, por Maurice Rostand, que foi adaptada para o cinema, em Hollywood, em 1931, pelo grande diretor, de origem germânica, Ernst Lubitsch (1892-1947).  Sim, ele mesmo, o grande diretor de comédias sofisticadas que marcaram época.  Só que esse filme dele, “Não Matarás” (Broken Lullaby) é seu único drama e não fez qualquer sucesso, acabou esquecido.  Ozon ampliou a trama de Lubitsch e propôs novos dilemas à protagonista.  A ação se passa antes na Alemanha e o filme é falado em alemão, depois vai à França e passa a ser falado em francês.  Na verdade, as duas línguas se alternam, porque há sempre em cena elementos das duas nações em contato.

O diretor fez uma adaptação livre do filme e conseguiu um resultado nada menos do que brilhante.  Tomou uma história de época e fez um filme que é a cara do século XXI,  com seus questionamentos aos fatos, às interpretações, às narrativas que vingam ou não, ao papel que a mentira pode desempenhar na vida, à própria noção de verdade.

O desempenho do elenco é outro ponto alto do filme.  Atores e atrizes trabalham fora dos clichês, com ambiguidade, sombras e sutilezas nos personagens, o que põe de pé uma história que caminha na corda bamba da realidade e dos sentimentos.  A receita poderia facilmente desandar se algum desempenho entregasse o que está oculto.  Isso não acontece.




François Ozon, na minha opinião, é o mais importante cineasta francês da atualidade.  Seu trabalho tem uma consistência e uma criatividade marcantes e geralmente seus filmes têm muito a dizer, além da beleza visual, curiosamente muito associada às cores, até mesmo nessa produção quase toda em preto e branco.  Vamos apenas lembrar de seus últimos filmes, são todos muito bons: “Uma Nova Amiga”, de 2014, “Jovem e Bela”, de 2013, “Dentro da Casa”, de 2012, “Potiche – Esposa Troféu”, de 2010, “O Refúgio”, de 2009, “Ricky”, de 2008.  Vários deles têm críticas aqui no cinema com recheio.  Quem ainda não conhece esse cineasta não perca mais tempo, vá atrás.  Comece por esse “Frantz”, que é um filme soberbo, talvez o melhor de sua filmografia.

“Frantz” está presente no Festival Varilux de Cinema Francês que, de 07 a 21 de junho de 2017, exibe 19 longas-metragens em 55 cidades brasileiras.  Em seguida, entra em cartaz nos cinemas.



sexta-feira, 2 de junho de 2017

NEVE NEGRA


Antonio Carlos Egypto




NEVE NEGRA (Nieve Negra).  Argentina, 2016.  Direção: Martín Hodara.  Com Ricardo Darín, Leonardo Sbaraglia, Laia Costa, Federico Luppi.  90 min.


Narrativas que envolvem muitos personagens e diversas subtramas são um convite à dispersão.  Elementos centrais podem perder a força e o tempo consumir a atenção e o interesse do espectador.  Às vezes, é como aquelas pessoas que se perdem em longas explicações, perorações intermináveis, que a gente acaba por não ouvir ou entender mais nada.

Muito diferente é o papo direto e reto.  O jeito econômico de contar uma história ou desenvolver uma ideia.  O thriller argentino “Neve Negra” é um bom exemplar de trama econômica, focada no que interessa, sem dispersões.  Usa o recurso do flash-back progressivo, que vai mostrando em doses homeopáticas o passado dos poucos personagens envolvidos na história, de modo a ir elucidando tudo até o final.




Não é um vai-e-vem no tempo interminável e confuso, como, por exemplo, o que se pode ver em outro filme em cartaz nos cinemas, “Faces de Uma Mulher”, produção francesa, dirigida por Arnaud des Pallières.  E há tantos outros exemplos, atualmente. Não, o filme de Martín Hodara é cheio de mistérios e descobertas surpreendentes, mas tudo faz muito sentido e termina bem amarrado.  Sem deixar fios soltos pelo caminho.

Toca, também, na questão de que a verdade é aquilo em que a gente acredita ou admite que seja, aquilo que ficou estabelecido como tal.  Um segredo bem guardado estabelece o que virá depois.  Ou, quem sabe, segredos em série darão o rumo das coisas.

Como de costume no cinema argentino contemporâneo, vê-se um roteiro bem construído, uma história bem concebida e que vai ao ponto.  Além disso, pode contar com alguns dos maiores atores do momento, como Ricardo Darín e Leonardo Sbaraglia, e o veterano e grande ator, Federico Luppi.  A jovem atriz Laia Costa tem uma interpretação segura e emocionante, ao lado desses cobras.  Mostra desenvoltura.




A trama remexe uma dinâmica familiar apodrecida por tudo o que ficou encoberto, negado, e virou tabu na relação entre os irmãos e deles com os pais.  É bem assustador o que se estabelece a partir daí.  O filme mostra como isso está hoje, quando um dos irmãos, Salvador (Ricardo Darín), vive isolado, caçando na região montanhosa e gelada da Patagônia, e se tornou bem agressivo no contato.  Marcos (Leonardo Sbaraglia), o irmão mais novo, e sua esposa, Laura (Laia Costa), vão ao encontro dele, tentando convencê-lo a vender a propriedade onde ele está há décadas, longe das coisas.  Tarefa quase impossível.  Enquanto isso, a outra irmã, Sabrina (Dolores Fonzi), vive internada, tendo crises de descontrole emocional. Para entender o porquê de tudo isso, “Neve Negra” mergulha no passado desses irmãos e nas relações que se estabeleceram entre eles, na juventude.

A neve da Patagônia, os espaços amplos, vazios, as árvores que ressaltam no branco da paisagem, as tempestades, nevascas castigando o ambiente, são a expressão visual do desarranjo familiar de contornos dramáticos, trágicos, na verdade.  E acabam por determinar o destino daqueles sofridos personagens.

O filme tem grande fluência e a narrativa prende de tal modo que seus já econômicos 90 minutos passam tão rápido, que mal dá para perceber.  Quando a projeção terminou, a minha sensação era de que “Neve Negra” tinha uma duração muito curta.  Só ao consultar o relógio, percebi que o tempo era padrão, o mais utilizado pela sétima arte desde sempre.  Grande mérito para o trabalho do diretor Martín Hodara e seu elenco admirável e de grande eficiência nos desempenhos.  A gente entra no clima facilmente e usufrui de um belo espetáculo cinematográfico.  Não surpreende o sucesso que o filme vem fazendo na Argentina, onde foi a produção mais vista nos cinemas em 2017, até aqui. 




sexta-feira, 26 de maio de 2017

DÉGRADÉ


Antonio Carlos Egypto




DÉGRADÉ (Dégradé).  Palestina, 2015.  Direção: Tarzan e Arab Nasser.  Com Hiam Abbass, Maisa Abd Elhadi, Manal Awad, Victoria Balitska.  83 min.


Num salão de beleza cheio de mulheres, rola papo sobre os relacionamentos com os homens, as fofocas, notícias e amenidades.  Num salão de beleza em dia de verão, na Faixa de Gaza, com a energia ligada, também.  Mas o clima é muito mais tenso e incerto.  Para começar, porque a energia pode acabar a qualquer momento e aí tudo se complica.  O salão de Christine tem até um precário gerador próprio, para amenizar a situação.  Mas lá fora podem-se ouvir tiros, há um leão, o único do zoo local, que foi roubado e circula pela rua monitorado por bandidos.  O exército israelense exerce um controle opressor sobre o pedaço.  Imagine se o grupo terrorista Hamas decidir acertar as contas por lá.  Tudo muito difícil.

Só que um salão desses continua funcionando, ainda que nas condições aqui descritas.  Uma noiva, uma grávida, uma religiosa, uma divorciada insatisfeita, uma viciada em remédios tarja preta e uma interessada demais na vida dos outros estão por lá, tentando se arrumar e se cuidar.  Convivem num microcosmos que pretende refletir a realidade das mulheres daquela sociedade e o seu entorno infernal.




É disso que trata o filme palestino “Dégradé”, dirigido por Tarzan e Arab Nasser, uma produção que contou com a participação financeira da França e do Qatar, que, ao que consta, se inspirou em fatos reais, ocorridos em 2007.  É estranho, mas perfeitamente possível.  A realidade, por vezes, supera a mais audaciosa ficção.

O filme, sem ser nenhuma obra de arte, é um bom trabalho, com boas sequências e boas atrizes, com destaque para a excelente Hiam Abbass, que já estrelou muitas produções do Oriente Médio, como “Free Zone”, “A Noiva Síria”, “Paradise Now”, “Lemon Tree”, “Uma Garrafa no Mar de Gaza”, “O Casamento de May”. 

Não é todo dia que se pode ver um filme da Palestina, que consegue nos trazer as emoções do que se vive por lá, nessa zona conflagrada, onde parece não haver espaço para a vida comum do dia a dia, com as preocupações normais que qualquer pessoa tem, em qualquer parte do mundo.  A vida a que todos têm o direito de ter.

  

segunda-feira, 22 de maio de 2017

CLASH


Antonio Carlos Egypto





CLASH (Clash).  Egito, 2016.  Direção: Mohamed Diab.  Com Nelly Kareem, Hany Adel, Ahmed Malek, Ahmad Dash.  97 min.


O filme “Clash”, do Egito, trata das turbulências que têm atingido o país após o que se convencionou chamar de Primavera Árabe e a revolução egípcia de 2011.  O diretor Mohamed Diab focaliza momentos que se seguiram à deposição do presidente eleito Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, derrubado pelos militares em 2013, por meio de um golpe, que produziu muitos protestos nas ruas e confrontos que marcaram um país dividido.

Para abordar a questão da radicalização política que envolve os dois grupos principais: os militares e a Irmandade Muçulmana, além da participação de grupos minoritários, como os cristãos e os judeus, e a atuação da imprensa, a estratégia do cineasta foi agrupá-los num único dia de protestos intensos, pela cidade do Cairo, dentro de um camburão. Presos extraídos dos protestos, os diferentes personagens convivem obrigatoriamente uns com os outros e têm de lidar com suas diferenças e seus ódios recíprocos.

Tudo se passa, claustrofobicamente, dentro do camburão, o tempo todo. A rua é vista de lá, os muitos protestos, a repressão policial, os tiroteios, as bombas, tudo está lá, mediado pela velha caminhonete-prisão.  Quando a porta do camburão se abre, o horizonte se insinua, mas logo ela se fecha e voltamos à tensa dinâmica desse carro-prisão.  A filmagem é muito tensa e intensa.  A agitada câmera na mão chega a incomodar, mas isso é intencional, nos põe no olho do furacão.




O tempo decorrido é o de um dia de protestos no centro da capital egípcia, absolutamente revelador do ambiente de confronto, aparentemente intransponível, que tomou conta do Egito.

O encontro dos detidos no camburão mostra a face humana, óbvia, que todos têm, encastelados em suas verdades políticas, religiosas, comportamentais.  É, pelo menos, uma tentativa de empatia, de se colocar no lugar do outro.  Única forma de procurar compreender algo para além das verdades ideológicas estabelecidas por cada grupo.  A imprensa, que se arrisca nesse ambiente conturbado, em busca do registro dos fatos, se sai bem, na visão do filme.  Não sem registrar suas discordâncias, representadas pelos dois jornalistas trancafiados.


O diretor Mohamed Diab já é conhecido do público brasileiro pelo filme ”Cairo 678”, de 2010, que tratava do machismo e do assédio sexual às mulheres da cidade do Cairo, nos ônibus.  Um trabalho muito bom.  Mas “Clash”, do ponto de vista cinematográfico, é mais criativo na concepção e execução dos planos.  Indica, portanto, uma evolução técnica do trabalho desse cineasta, que merece toda a atenção.  Se mais não for, por sua capacidade de lidar no cinema com questões pungentes do seu tempo e do seu país. 


quarta-feira, 17 de maio de 2017

A VIDA APÓS A VIDA


Antonio Carlos Egypto




A VIDA APÓS A VIDA (Zhi Fan Ye Mao).  China, 2016.  Direção e roteiro: Zhang Hanyi.  Com Zhang Li, Zhang Mingjun.  80 min. 


O longa-metragem chinês do cineasta estreante Zhang Hanyi pode ser definido como um filme singelo e, ao mesmo tempo, fantástico.  Ou que trata do fantástico com singeleza.  Ele nos leva à província chinesa de Shanxi, uma espécie de local abandonado pelos próprios moradores, esquecido, parado no tempo.  Obviamente, decadente.  Como diz o protagonista: ninguém mais morre aqui, todo mundo vai embora antes. O cenário é desolador, há muitas árvores, mas todas secas de outono e as casas são escombros ou muito precárias.  A trama é de grande simplicidade, embora apele ao sobrenatural, como o próprio título do filme, “A Vida Após A Vida”.

Ocorre que uma pequena parte dos antigos moradores, que já partiram e morreram, voltam na forma de fantasmas, buscando solucionar questões que deixaram pendentes em suas vidas na Terra, ou, mais precisamente, em Shanxi.

É o caso do espírito de Xiuying, morta há mais de dez anos, que toma o corpo de seu filho Leilei (Zhang Li), para reencontrar o marido, Ming Chu (Zhang Mingjun), e resolver uma coisa importante para ela: mover uma árvore plantada quando se casou.  Aí vemos o filho falando e se comportando como a mãe, em contraste com o que foi mostrado antes, um garoto agitado e contestador.  O jovem Zhang Li se sai muito bem nesse desempenho. Zhang Mingjun, que faz o pai, terá, a todo custo, de resolver a questão do transporte da árvore, o que não se colocará como uma tarefa fácil.  E conviverá com a mulher materializada num adolescente, o que também traz algumas dificuldades interpretativas.




Para quem não tem familiaridade com a complexa cultura chinesa – e oriental --, não é simples entender a relação dos seres humanos com as árvores que os conhecem e com quem têm uma história em comum.  A relação com a natureza é muito forte e simbólica, especialmente numa pequena localidade rural do interior do país.

A transcendência que existe aí também não cabe nos conhecidos parâmetros religiosos ocidentais.  A mulher que morreu não reencarna para viver uma nova vida na Terra.  Ela toma emprestado o corpo de seu filho para poder resolver um problema e, então, se liberar para viver em paz fora da Terra. Também não sei se se coadunaria com algum preceito budista e há que se reconhecer que tem similitude com os espíritos ou entidades que baixam temporariamente em pessoas vivas.

O que é mostrado no filme é que o espírito se apossa da pessoa e continua caminhando pelo campo, observando as árvores, o ambiente, e agindo para alcançar seu objetivo, que é imediato.  Não remete a questões morais, nem de largo espectro.  É, como disse, singelo.




A direção de Zhang Hanyi combina com isso.  Ele não usa nenhum efeito especial, nenhuma fantasmagoria, nem passa perto das possessões que chacoalham as pessoas.  Tudo permanece absolutamente calmo, tranquilo, até desolado, como é a localidade.  A relação do casal, separado pela morte dela, não apresenta nenhuma dramaticidade que ultrapasse a questão em foco, a da árvore.  Embora alguns diálogos remetam ao passado comum, à ausência, à saudade e ao tempo percorrido.  Mas tudo muito discreto.


Uma curiosidade, que recomenda o filme, é que ele é produzido pelo grande diretor Jia Zhang-Ke.  Evidentemente, não se poderia esperar que, por isso, o filme fosse chegar perto do talento do cineasta produtor.  Mas a presença de Zhang-Ke nos créditos abre portas importantes, principalmente nos festivais de cinema pelo mundo.  O filme já passou pelos festivais de Berlim e Hong-Kong.  Neste último, Zhang Hanyi recebeu um prêmio concedido a cineastas estreantes.  Já passou por aqui, no Festival Indie  2016, e agora entra em cartaz no circuito comercial dos cinemas.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

O CIDADÃO ILUSTRE


Antonio Carlos Egypto




O CIDADÃO ILUSTRE (El Ciudadano Ilustre).  Argentina, 2016.  Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn.  Com Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio.  118 min.



Um escritor oriundo de uma pequena cidade argentina, Salas, se projeta como grande nome da literatura mundial, vivendo na Europa por três décadas, e conquista nada menos do que o Prêmio Nobel de Literatura.  Esse personagem é Daniel Mantovani (Oscar Martínez).  O início do filme “O Cidadão Ilustre” é a sua consagração na cerimônia de entrega do Nobel, em Estocolmo, e ali já se vê seu espírito crítico e a insubmissão que lhe são característicos.

Se algum dia esse escritor, famoso mundialmente, resolver voltar para rever a pequena cidade natal de Salas, aproveitando um convite singelo para receber a medalha de Cidadão Ilustre da localidade, após cerca de 40 anos ausente, o que pode acontecer? 




Esta é a situação que o filme de Gastón Duprat e Mariano Cohn explora, na forma de uma comédia ácida, que lida com o efeito do sucesso cosmopolita sobre o mundo provinciano.  De um lado, o orgulho do conterrâneo mal disfarça a inveja.  De outro, uma espécie de entusiasmo patriótico é incapaz de ver o mundo para além das fronteiras nacionais.  Há ambiguidade em ver sua pequena localidade também se tornar famosa, mas pelo que ela tem de pior.  O desejo de usufruir das vantagens de ser o berço natal de um nome famoso no mundo vai de encontro à constatação da pequenez e mediocridade daquele espaço provinciano.  A descoberta de que a grande literatura se alimentou das lembranças desse pequeno mundo limitado e opressor acaba por trazer à tona o que as pessoas têm de mais obscuro: a agressividade destruidora. 




Tom Jobim dizia que, no Brasil, o sucesso ofende as pessoas.  Elas não podem suportá-lo.  Quando esse sucesso revela sua face crítica, inevitável, aliás, muitos se sentem diminuídos, rejeitados, dispostos até a matar, por inveja.  Isso não é um atributo brasileiro, ou argentino, é do ser humano frustrado, insatisfeito, que se sente rejeitado.

De qualquer modo, tudo o que escrevi até aqui, revela uma visão dessa história, não significa que seja a única ou que tenha que ser assim.  Pode ser a visão do escritor, que a ela agrega fantasia, exageros, dramaticidade.  O conflito existe, é real, mas pode adquirir diferentes configurações.  Uma vez mais, se coloca o tema da verdade, o que ela é, como alcançá-la, se é que existe.  E do que é factual e ficcional.  O filme lida com isso também, embora de modo pouco original.

No entanto, o conjunto do trabalho é muito bom.  A atuação de Oscar Martínez, excelente, e o tom cáustico da comédia funciona muito bem.  Além de tratar de um tema relevante. Não é nenhum besteirol, nem é nada apelativo.

“O Cidadão Ilustre” foi escolhido para representar a Argentina na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.  É uma coprodução com a Espanha e levou o prêmio Goya de melhor filme ibero-americano.



segunda-feira, 8 de maio de 2017

PATERSON


Antonio Carlos Egypto




PATERSON (Paterson).  Estados Unidos, 2016.  Direção e roteiro: Jim Jarmusch.  Com Adam Driver, Golshifteh Farahani.  118 min. 


Paterson (Adam Driver) vive em Paterson, New Jersey, cidade de cerca de 150 mil habitantes.  Isso já indica uma posição de familiaridade, de pertencimento, de conforto.  Difícil se sentir estranho ou excluído numa cidade pequena, que leva o seu nome, ou que seu nome tenha sido escolhido em função dela.

O personagem Paterson é motorista de ônibus na cidade e cumpre uma rotina diária que inclui ir para casa após o trabalho, jantar e conversar com a mulher, levar o cachorro buldogue para passear, passar no bar para tomar uma cerveja.  Mas, no meio de tudo, em qualquer espaço de tempo, ele escreve poemas do cotidiano, num caderno secreto, que não mostra nem para a esposa.  A inspiração pode vir de uma conversa qualquer ou de uma simples caixa de fósforos.




Laura (Golshifteh Farahani), esposa de Paterson, tem outro tipo de rotina.  Se ocupa de forma maníaca com formas geométricas em preto e branco, usadas para decorar todos os cantos da casa, suas roupas e seu violão.  E faz cupcakes enfeitados, com motivos em preto e branco.  Até quando propõe uma ida ao cinema com o marido, o filme de terror antigo é em preto e branco.

O casal vive bem, se apoia mutuamente, são afetivos um com o outro e convivem com o cachorro em paz.  O que isso tudo mostra?  Que o mundo de cada um pode ser confortável, tranquilo. Que a rotina não precisa ser vista como um tédio ou simples acomodação.  Ela também pode ser acolhedora e até poética.  O que não significa, é claro, ausência de conflitos.  E me vem à lembrança o título em português do último filme de um dos grandes mestres do cinema japonês, Yasujiro Ozu (1903-1963): “A Rotina Tem Seu Encanto”, de 1962.  Esse mesmo título caberia muito bem no filme de Jarmusch.  A inspiração em Ozu também é clara.  Tanto que, quando algo abala essa bela rotina poética, é um poeta japonês que aparece em Paterson, para salvar a poesia do personagem Paterson.  Bonito isso!




O diretor Jim Jarmusch teve grande destaque no cinema independente norte-americano, nos anos 1980, e chamou muito a atenção pela capacidade de criar climas mais do que coloquiais e, ao mesmo tempo, estranhos, algo assim meio fora do tempo e das expectativas sociais.  Os ambientes e situações são banais e, às vezes, rotineiros.  Gosto muito de “Estranhos no Paraíso”, de 1984, “Daunbailó” (Down By Law), de 1986, dos curtas que deram origem ao longa “Sobre Café e Cigarros”, de 2003, e do mais recente, “Amantes Eternos”, de 2013.  O jeito cool e esquisito da maioria dos personagens que ele retrata são muitíssimo interessantes, embora nem todas as histórias consigam o efeito desejado e algumas coisas soem repetitivas, no conjunto da obra.  É natural.  Para quem chegou surpreendendo, passada a surpresa a novidade se esgota.  Mas ele está se mostrando capaz de se renovar, ultimamente.  “Paterson” é um claro exemplo disso.

Jim Jarmusch sempre consegue extrair dos atores que escolhe desempenhos especiais, minimalistas, lunáticos, tresloucados ou passivos.  O casal que forma a dupla de protagonistas aqui dá um show de atuação e compõe personagens tão simpáticos quanto familiares e perfeitamente integrados ao clima do cineasta.  A linda e talentosa atriz iraniana Golshifteh Farahani, que foi banida de seu país por ter posado nua para uma revista, é muito convincente e encantadora.  Ela tem mostrado uma versatilidade grande em filmes como “A Pedra da Paciência”, de 2012, e “Dois Amigos”, de 2015.  Adam Driver entrou no clima cool do diretor e se saiu muito bem.  Acabamos de vê-lo em “Silêncio”, de Martin Scorsese, no papel de um padre; ele também tem atuado nos filmes da série “Star Wars”.  A atriz e o ator agregam valor a esse novo trabalho de Jim Jarmusch.


sábado, 6 de maio de 2017

DESTAQUES DO "É TUDO VERDADE"


Antonio Carlos Egypto


O Festival de Documentários, nacionais e internacionais, “É Tudo Verdade”, 22ª. edição, 2017, apresentou uma qualidade de trabalhos admirável.  Vi vários filmes, muito menos do que gostaria, mas devo dizer que gostei bastante do que vi.  Vamos a um rápido comentário sobre alguns dos filmes que pude ver.


Cidades Fantasmas


CIDADES FANTASMAS, de Tyrell Spencer, foi o vencedor da competição brasileira de documentários longa-metragem.  É uma produção gaúcha, da famosa Casa de Cinema de Porto Alegre, apesar de o nome do diretor sugerir uma origem estrangeira. Tyrell foi filmar a realidade de quatro cidades abandonadas, a partir dos que restaram nelas ou dos que delas se lembram.  Da antiga Fordlândia, no Pará, Brasil, restaram belas casas hoje ocupadas por posseiros.  A erupção de um vulcão pôs fim à cidade de Armero, na Colômbia.  O fim da prosperidade da época do salitre, no Chile, acabou com a cidade de Humberstone.  E a quebra se uma barragem inundou e transformou em ruínas uma antiga e animada estação de águas medicinais, em Epecuén, na Argentina. Um belo trabalho do jovem diretor gaúcho, com sensibilidade para ouvir e entender os “sobreviventes” dessas cidades mortas, que buscam preservar suas memórias.

COMUNHÃO (Komunia), de Anna Zamecka, vencedor da competição internacional de longas documentais, é da Polônia e mostra uma família em que nada parece funcionar como deveria.  O pai, distante da realidade, vive embalado no álcool.  A mãe saiu de casa e vive com outro homem e um bebê.  A jovem Ola, de 14 anos, é a chefe dessa família, assumindo os cuidados do seu irmão autista, de 13 anos.  É impressionante o papel que essa menina assume, tentando juntar os cacos dessa estrutura familiar desmoronada.


Os Cariocas

                                                                   
EU, MEU PAI E OS CARIOCAS – 70 ANOS DE MÚSICA NO BRASIL, de Lúcia Veríssimo, resgata a fantástica contribuição do maior conjunto vocal da história da música popular brasileira: Os Cariocas.  Lúcia é filha de Severino Filho (1928-2016), um dos grandes expoentes do grupo vocal, que o manteve em atividade por tantos anos, apesar de um interregno no período da ditadura militar.  É de se orgulhar e sair cantando.  Eles eram espetaculares e cobriram largos períodos e estilos musicais brasileiros, sempre com arranjos originais.  Lúcia Veríssimo se coloca no título adiante do pai e do próprio conjunto, sendo que seu trabalho não é musical.  Isso soou estranho.  Mas não desqualifica o trabalho que ela fez e a oportunidade da realização, trazendo Severino vivo e ativo para ser lembrado e homenageado.

CIDADE DE FANTASMAS (City of Ghosts) é outro filme, embora o título seja quase o mesmo do documentário brasileiro vencedor do Festival.  Este filme é estadunidense e abriu o evento em São Paulo.  Aqui, a cidade que está sendo assassinada é Raqqua, na Síria, por conta da guerra e das atrocidades do ISIS, que se autointitula Estado Islâmico.  Mas um grupo de jornalistas ativistas, militantes, arrisca tudo para registrar e divulgar pelo mundo o que se passa por lá.  Gente de fibra, de coragem, que faz a diferença.


Cidade de Fantasmas


NO INTENSO AGORA, de João Moreira Salles, é um trabalho de reeleitura de imagens recolhidas de diferentes arquivos e da própria mãe do diretor.  Uma viagem que ela fez à China de Mao Tsé Tung, em 1966, foi o que deu o ponto de saída, ao que Moreira Salles agregou várias filmagens do Maio de 1968 em Paris, da Primavera de Praga e do Brasil do AI-5, do mesmo período. Não são captadas novas imagens, o que se busca é o sentido, a representação de um período histórico do mundo, que é um dos mais transformadores da contemporaneidade.  É, enfim, um belo estudo do contexto das imagens e do que elas podem revelar de quem as filmou.  Proposta brilhante. Um novo e atento olhar sobre imagens existentes, que foram selecionadas por uma temática em comum, mostram novas possibilidades para os documentários.  O filme foi um dos grandes destaques do evento, apresentado fora de competição.

CINE SÃO PAULO, de Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli, homenageia a paixão pelo cinema, ao contar a história de Francisco Teles, um obcecado e abnegado dono de sala de exibição em Dois Córregos, SP, que nunca deixou a sala fechar, apesar de todos os contratempos.  Por meio de sua trajetória, vão acontecendo as mudanças nas plataformas de ver filmes, do projetor a carvão ao digital, passando pela TV, videocassete e DVD.  Aí vai se revelando uma figura humana admirável e divertida.  Seu Chico é um bom personagem e o ambiente que o cerca também é bastante revelador.  O filme, com isso, cresce e amplia seus horizontes.


Cine São Paulo


QUEM É PRIMAVERA DAS NEVES, é outro ótimo trabalho da Casa de Cinema de Porto Alegre, dirigido por Jorge Furtado e Ana Luíza Azevedo, grandes e reconhecidos cineastas. Tudo começou com a curiosidade de Jorge Furtado a respeito de uma tradutora de livros de Lewis Carroll, Júlio Verne e outros, chamada Primavera das Neves, um nome que, após os anos 1960, não apareceu mais.  Um nome desses, poético, significa o quê?  Um pseudônimo, alguém que não existe?  Ou terá mesmo existido uma pessoa com esse nome, de verdade?  A resposta vem pela Internet e se abre a possibilidade de explorar uma existência, rica e complexa, que traz muitas informações sobre aspectos da história brasileira e portuguesa, elementos afetivos muito sólidos e delicados, amizades duradouras, casamento marcante e complicado.  Enfim, uma vida a ser conhecida e lembrada.  E o documentário faz isso muito bem.

Dentre as coisas que vi, gostaria de destacar, ainda, da mostra retrospectiva de documentários soviéticos,  MAIS LUZ! (Bólche Sviéta),  de 1987,  de Marina Babak, que para marcar os 70 anos da Revolução Russa fez um apanhado histórico dos acertos e erros desse período todo, que vai de Lênin, figura inspiradora máxima, à perestroika e à glásnot de Gorbachev, que marca uma nova era.  Muita coisa nova viria à tona naquela época, e neste documentário, que traz figuras que andavam apagadas da história oficial.





quarta-feira, 3 de maio de 2017

SOBRE VIAGENS E AMORES


Antonio Carlos Egypto






SOBRE VIAGENS E AMORES (Summertime).  Itália, 2016.  Direção e roteiro: Gabriele Muccino.  Com Brando Pacitto, Matilda Lutz, Taylor Frey, Joseph Haro.  103 min.


Marco (Brando Pacitto) e Maria (Matilda Lutz) são dois jovens italianos que se conhecem, mas não chegam a gostar um do outro.  Em função de um amigo comum, acabam compartilhando uma viagem improvável, mas, fascinante, aos Estados Unidos.  Mais precisamente, a São Francisco, onde serão hospedados por um casal de rapazes gays, vividos por Taylor Frey e Joseph Haro.

O que virá daí é uma jornada de descobertas pessoais, sexuais, existenciais que, claro, produzirá mudanças profundas em todos eles.  Um verão para nunca mais esquecer.  Aquelas situações que marcam para sempre uma vida, no caso, quatro vidas.




Esse tipo de narrativa poderia favorecer a eclosão de clichês, mensagens edificantes, finais felizes e definitivos.  Mas Gabriele Muccino escapa dessas armadilhas.  Os jovens em questão são gente reconhecível, com o vigor e a disponibilidade característicos dessa faixa etária, mas com seus conflitos, seus medos, seus preconceitos, suas indecisões.

A juventude é o momento mais favorável para estar aberto ao novo, ao que não se conhece, ao que não se entende, e com disposição para arriscar.  É nessa linha que os personagens de “Sobre Viagens e Amores” se coloca.

Dessa forma, suas experiências se tornam mesmo transformadoras.  O que não significa que tudo que se deseja possa acontecer, que os momentos felizes se eternizem, que as coisas não voltarão a mudar, no futuro.  E que as frustrações, inevitáveis na vida, não surjam logo ali, virando a esquina.




Se a felicidade como tal não existe, momentos felizes fazem toda a diferença, marcam vidas, se tornam inesquecíveis.  Embora passem, como tudo passa, nem por isso deixam de ser muito importantes para quem os viveu.  A maioria dos momentos felizes que vivemos faz parte da nossa identidade, alimenta e enriquece a nossa existência.  O filme de Gabriele Muccino celebra isso num tom alegre, vital, energético, tocado por quatro jovens atores, simpáticos e empenhados em seus papéis, que dão conta do recado.

É um bom filme para ser visto pelos jovens,  pois comunica com facilidade e bom ritmo questões importantes desse momento de vida, que envolve escolhas, superação de estereótipós e preconceitos, com vistas a uma vida adulta mais aberta e consistente.  E foca na afetividade e na vida real, coisas que o cinema dirigido aos jovens tem negligenciado, em favor de heróis do mundo virtual, extraídos dos quadrinhos, da fantasia, dos jogos eletrônicos, do mundo intergalático, essas coisas todas.  Nada contra.  Mas o cinema para esse público tem que se diversificar, ir além da mera diversão dos filmes de ação, mesmo para os mais jovens.