terça-feira, 14 de novembro de 2017

BALANÇO DA 41a. MOSTRA

                                   
Antonio Carlos Egypto


A Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, edição 41, ofereceu um  vasto cardápio em qualidade cinematográfica a habituées.  E quem chegou agora também não tem do que se queixar.  A maior dificuldade foi escolher o que assistir, entre 394 filmes.  Por maior disponibilidade que se tenha para o evento, é quase impossível chegar a ver 20% do que é ofertado.  Tirando alguns poucos, que eu conheço, quantos conseguiram ver mais de 70 filmes no período da Mostra?

Eu vi bastante, 60 filmes neste ano, mas com a vantagem de ver uma parte deles em cabines de imprensa, antes de a Mostra começar.  Aí ficou possível ver e ainda escrever sobre os filmes, assistindo em geral a três filmes por dia. Desses 60, já comentei no  cinema com recheio  30 filmes, ou seja, metade deles, sendo que eu escolhi falar do que gostei mais.  O que significa que eu já tinha visto muita coisa boa, a maioria, e ainda teria muito mais a ver.  Não vou retornar aos 30 já comentados, eles podem ser acessados por quem não leu aqui mesmo, no blog.


COM AMOR, VAN GOGH


COM AMOR, VAN GOGH, da Polônia/Reino Unido, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman.  É uma animação muito bonita, feita a partir dos quadros e da técnica típica do pintor, procurando contar um pouco da sua vida, por meio das cartas que escreveu, e levantar questões sobre a sua morte.  O público o elegeu como o melhor da Mostra.  Quem quiser conferir, fique de olho, porque ele já será lançado nos cinemas.  É, sem dúvida, bonito de ver, embora a narrativa não seja das mais inovadoras ou atraentes.  O assunto cansa e a técnica se repete.

EM QUE TEMPO VIVEMOS? é uma junção de curtas dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), refletindo sobre a realidade atual, de formas diversas.  O chinês Jia Zhang-Ke e o nosso Walter Salles são destaques, mas todos são bons. Será lançado nos cinemas também, em breve.  Bem, a data mesmo, nunca se sabe...

O AMANTE DE UM DIA é mais um belo filme do diretor francês Philippe Garrel.  A curiosa história da nova amante do pai ter a mesma idade da filha: 23 anos.  A relação que se dá entre as duas é o fio condutor do filme.  Muito bom.  E vai chegar aos cinemas, também.

UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA, filme argentino de Diego Lerman, também está para ser lançado nos cinemas, em breve.  Não chega a ser um filme entusiasmante, mas tem algumas boas sequências, numa história que envolve decisões éticas, um tanto complicadas, sob contexto social limitador.

MULHERES DIVINAS, da seleção suíça da Mostra, de Petra Volpe, é um filme quadradinho na concepção, que trata do direito ao voto feminino no país, só legalmente efetivado pelos homens na incrível data de 07 de fevereiro de 1971.  Não é erro, não.  É um absurdo que parece inconcebível, num  país desenvolvido como a Suíça.  O filme mostra que, numa pequena cidade, a coisa era ainda mais ridícula, em pleno período de movimentos sociais que sacudiram a França e toda a Europa, em 1968.  A protagonista se chama, apropriadamente, Nora, como a da casa de bonecas de Ibsen.



O BEIJO NO ASFALTO


Os únicos filmes brasileiros que vi na Mostra me agradaram bastante.  AOS TEUS OLHOS foi dirigido por Carolina Jabor e protagonizado por Daniel de Oliveira.  Trata do tema do abuso sexual, supostamente praticado por um professor de natação, com um menino.  Ele foi sumariamente julgado nas redes sociais, sem que se pudesse investigar adequadamente o caso.  O BEIJO NO ASFALTO, dirigido por Murilo Benício, a partir do texto de Nelson Rodrigues, é muito bom e criativo na sua estrutura.  Da mesa de preparo do trabalho para as cenas filmadas, as coisas se intercalam e esclarecem o que envolve os personagens, seus sentimentos e motivações.  Com direito a ótimas tiradas e intervenções da grande Fernanda Montenegro.  No elenco, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Stênio Garcia e Otávio Müller brilham.  E o ator Murilo Benício se revela como cineasta, em seu primeiro longa.  A estrutura lembra o filme “Ricardo III, um Ensaio”, de Al Pacino, de 1986, que procurava explicar a peça de Shakespeare.  Nelson Rodrigues também merece esse cuidado, digamos, didático.

As retrospectivas foram outro ponto alto da Mostra.  Já comentei filmes de Agnès Varda, maravilhosos.  Foi bom poder ver, do Paul Vecchiali, NOITES BRANCAS NO PÍER, um trabalho de categoria, com uma música espetacular.  Já seu filme novo, OS 7 DESERTORES, não foi muito inspirador e sua trama se desgastou rapidamente.  Do grande cineasta suíço Alain Tanner pude ver JONAS QUE TERÁ 25 ANOS NO ANO 2000 e JONAS E LILA, ATÉ AMANHÃ, que fazem um painel da realidade sociopolítica e comportamental de dois momentos decisivos, separados por 25 anos, e são grandes trabalhos.  AMANTES NO MEIO DO MUNDO envereda pela vida privada de um político, candidato nas eleições locais, e o rumo que tomam suas vidas pessoal e pública, outro bom trabalho.  Vi, ainda, MESSIDOR, um pouco mais datado, mas interessante.


JONAS E LILA, ATÉ AMANHÃ


Também houve filmes menores ou que, simplesmente, me desagradaram.  Alguns que preferiram enfatizar a crueldade ou o ser humano tomado por uma angústia paranóica se perderam porque produziram sofrimento inútil no espectador, numa perspectiva francamente estéril.  Ou investiram no grotesco puro e simples.  É o caso de NÃO ME AME, de Alexandros Avranas, da Grécia, POROROCA, de Constantin Popescu, da Romênia, ou MARLINA, ASSASSINA EM 4 ATOS, de Mouly Surya, da Indonésia.

Também houve equívocos em filmes políticos, como o argentino A CORDILHEIRA, de Santiago Mitre, que nem a presença carismática de Ricardo Darín salva.  Ou o francês ESSA É NOSSA TERRA, de Lucas Belvaux, um pouco melhor.  Em ambos, a política acaba sendo mostrada nos bastidores, nas manobras, nas jogadas, nos interesses pessoais ou de pequenos grupos, em decisões individualizadas, como se fatores socioeconômicos e históricos não tivessem maior e mais importante determinação.  Fica falso ou incompleto.  O documentário francês NAPALM, de Claude Lanzmann, que mostra a Coreia do Norte em três momentos distintos, se perde pelo excesso de personalismo e verborragia do diretor, que converte uma experiência pessoal em algo mais relevante do que o contexto geral, embora com ele se relacione.

O filme uruguaio/argentino EL PAMPERO, de Matias Lucchesi e O REBANHO, de Sebastian Caulier, também argentino, tratam de questões de relacionamento vinculando-as a crimes e suspense.  O resultado é apenas mediano, nos dois casos.  Ao documentário espanhol NIÑATO, de Adrián Orr, sobre um pai solteiro, artista  rapper , e sua rotina familiar com o filho, a irmã e a sobrinha, falta ritmo e interesse.  Torna-se monótono, sem acrescentar nada de relevante.  O suíço ANTES QUE O VERÃO ACABE, de Maryam Goormaghtigh, traz um relacionamento de jovens rapazes iranianos vivendo na Suíça, se adaptando ou desejando voltar, comparando as culturas.  Não deixa de ser interessante.

O espanhol SELFIE, de Victor García León, e o japonês OH LUCY!, de Atsuko Hirayanagi, ficaram na superfície, mesmo contando com bons personagens.  Podem servir para entretenimento, mas ficaram devendo em relação ao que se espera na Mostra.

E POR QUE A SALA 2 DO RESERVA E A 1, DO ITAÚ AUGUSTA?

Volto a reclamar das escolhas inadequadas.  A sala 2 no Reserva Cultural, acanhada para a Mostra, que, de forma evidente, estaria muito mais bem acolhida na sala 1, melhor e mais ampla.  Será que a Mostra não merece a prioridade do cinema, nos dias em que ela ocorre?  Estranho!


Quanto à sala 1 do Itaú Augusta, dá para entender a sua escolha, por ser a maior, mas é a de pior visibilidade e impraticável para a leitura de legendas abaixo da tela.  Talvez a saída seja programar só filmes nacionais ou que já estejam legendados, para essa sala, não os demais.  Ou usar a sala 3 do Itaú Augusta, que é ótima, embora seja menor.



segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O OUTRO LADO DA ESPERANÇA

  
Antonio Carlos Egypto




O OUTRO LADO DA ESPERANÇA (Toivon Tuolla Puolen).  Finlândia, 2017.   Direção e roteiro: Aki Kaurismaki.  Com Sherwan Haji, Sakari Kuosmanen, Janne Hyytiäinen, Ylkka Koivula. 100 min.


O cineasta finlandês Aki Kaurismaki já é conhecido do público cinéfilo brasileiro, por filmes como “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos”, de 1989, “Nuvens Passageiras”, de 1996, “O Homem sem Passado”, de 2001, “O Porto”, de 2011, entre outros. 

Em “O Outro Lado da Esperança”, seu protagonista é o refugiado sírio Khaled (Sherwan Haji), que acaba desembarcando na cidade de Helsinki, meio por acaso.  Fugindo da guerra da Síria e atravessando países inteiros da Europa, como muitos o fazem, acabou sendo transportado, escondido num contêiner de carvão.  Tenta, então, buscar asilo legalmente na Finlândia, mas se depara com a burocracia e o descaso das autoridades com figuras como a dele.  Isso, de um lado.  De outro, encontra hostilidade e agressão por parte de militantes da extrema direita, contrários à acolhida de refugiados.




Kaurismaki nos mostra essa realidade tão dura e dramática, mas encontra respiro em muitos aspectos.  Primeiro, porque sempre existe espaço para um momento de humor, de irreverência.  Para isso, basta um mal entendido, uma palavra não compreendida ou qualquer coisa similar.  Segundo, porque, como ele nos mostra, também existe gente boa, que se condói do sofrimento alheio e se dispõe a ajudar.  Terceiro, porque há muita solidão e desamparo no mundo e os solitários ou os desconsolados podem se dar as mãos para sobreviver melhor.  Quarto, porque as pessoas se irritam e se opõem à insensibilidade oficial e procuram compensar o que lhes parece injusto ou desumano.

Por tudo isso, se vê que a esperança existe, não porque quem a apregoa seja um tolo otimista, mas porque o mundo é mais complexo do que parece e há espaço para que muita coisa aconteça.  O momento é difícil, mas a humanidade ainda não está irremediavelmente perdida.

O estilo seco, direto e sem muitas nuances do diretor, nos ajuda a viver o problema do refugiado sírio como se estivéssemos no dia-a-dia com ele, tendo que lidar com questões triviais, rotineiras, passando pelos apuros, sem grandes explosões emocionais, tendo de aceitar o que nos coube no momento.




Que rumo as coisas podem tomar, também é algo que pode escapar ao controle, frequentemente acontece.  E o que se há de fazer?  Outra coisa: a experiência de um pode não servir ao outro ou ele precisará constatar, para se convencer de algo.  Não tem muito jeito de ser diferente, para se evitar certos problemas. Enfim, a vida é complicada, cheia de circunstâncias surpreendentes e, de onde menos se espera, vem o problema ou a solução.

Um cinema aparentemente simples, no entanto, rico de situações que nos levam à reflexão, não pela via do excesso, mas pelo minimalismo ou pela irreverência.  Singelo e sutil.

“O Outro Lado da Esperança” foi o vencedor do Urso de Prata para o melhor diretor do Festival de Berlim.  Exibido na 41ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, já está em cartaz no circuito comercial dos cinemas.






quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A TRAMA

  
Antonio Carlos Egypto




A TRAMA (L’Atelier).  França, 2017.  Direção e roteiro: Laurent Cantet (roteiro em parceria com Robin Campillo).  Com Marina Fois, Matthieu Lucci, Warda Rammach, Issam Talbi, Florian Beaujean.  114 min.


Laurent Cantet, o cineasta de “Entre os Muros da Escola”, de 2008, acredita na educação como caminho de promoção humana e de saída para alguns dos grandes problemas do mundo contemporâneo.  Em “A Trama”, isso é, mais uma vez, muito claro.  A narrativa mostra uma oficina literária coordenada por uma escritora já reconhecida, Olívia (Marina Fois), e dirigida a um grupo de jovens, interessados e com talento para a escrita, uns mais, outros menos, que revela a diversidade.  Ali estão jovens que representam diferentes etnias, imigrantes, extratos sociais e, consequentemente, posturas e visões de mundo.  Neste sentido, formam um microcosmos da realidade atual da França, ainda que se trate aqui de uma pequena cidade industrial, com sua história e características próprias.  Por sinal, essa história e essas características serão objeto da criação dos jovens candidatos a escritor, como referencial fundamental da história policial que eles estão a criar coletivamente.

Um desses jovens é Antoine (Matthieu Lucci), que vive o tédio e a falta de trabalho e de perspectivas, convivendo com uma gangue que cultiva atos de violência.  No que escreve, Antoine vai revelando seu fascínio por essa violência, o que vai provocar reações contrárias, assustadas ou indignadas, por parte do grupo.  E que leva Olívia a buscar entender e interferir no mundo dele, correndo os riscos correspondentes a uma aproximação que se fará para além da oficina literária.




O próprio contexto da história já é um importante trabalho educacional: a formação de novos escritores de ficção, com valorização da palavra, da expressão escrita, do debate de ideias e do estímulo à criação.  Envolve o questionamento de valores e atitudes, busca fazer pensar, refletir sobre o que se produz.  Educação pela arte, da melhor qualidade.

Os conflitos que daí vão derivar só tomam o rumo que tomam porque na base está um processo educacional de verdade.  E a resolução final é uma nova crença no processo educativo.

O diretor Cantet fez um belo trabalho, que, longe de ser otimista, consegue passar ao largo de uma tendência cada vez maior de descrença no ser humano e em qualquer possibilidade de enfrentar e superar as tragédias do mundo contemporâneo.  Ele mostra claramente o que nos aflige, sem dourar a pílula, mas não sucumbe à derrota.  Tal como se autodefinia Ariano Suassuna, o trabalho de Laurent Cantet também é de um realismo esperançoso.


Laurent Cantet na 41.a Mostra


“A Trama” mostra vida real: estranhamentos, rejeição, medo, atração por atitudes preconcebidas e violentas.  Mas não fica só nisso.  Entende que todos os afetos fazem parte da vida humana.  Também estão lá o acolhimento, a compreensão, a solidariedade e o perdão.  E um apelo à racionalidade, quando os ânimos estão quentes.

O trabalho com o elenco é muito bom.  Os protagonistas, muito convincentes e todo o grupo de jovens, também.  Ninguém distoa e o clima e o ritmo da filmagem nos convidam o tempo todo a analisar o que está acontecendo e a tirar as nossas próprias conclusões.


“A Trama” foi o filme de encerramento da 41ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e já está entrando em cartaz no circuito comercial.



domingo, 5 de novembro de 2017

DOCUMENTÁRIOS INTERNACIONAIS NA 41ª. MOSTRA


Antonio Carlos Egypto


Os documentários internacionais foram uma atração em destaque na 41ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.  É bom lembrar que um deles – O PACTO DE ADRIANA, do Chile – foi o filme vencedor da seleção dos mais votados entre os novos diretores, pela escolha do júri internacional da Mostra, em que estavam incluídos os filmes de ficção.  Pude ver durante o evento 10 documentários internacionais e devo dizer que gostei de todos e que alguns deles, muito especialmente, serão sempre lembrados.


VISAGES, VILLAGES


É o caso de VISAGES, VILLAGES, da quase nonagenária Agnès Varda, uma das maiores cineastas do mundo, na atualidade.  Seu filme respira humanismo, respeito pela vida, pelas pessoas, sobretudo as mais simples, com ênfase nas mulheres.  Ela, aqui, trabalha em parceira com J R, um fotógrafo que faz colagens de rostos e pessoas em corpo inteiro, em tamanho gigante, ocupando fachadas de casas, prédios, galpões, espaços esquecidos.  VISAGES, VILLAGES é um road-movie  documental por vilarejos franceses, ao encontro de personagens, flores, animais, paisagens.  Enfim, o que pintar.  Para que isso resulte em algo tão palpável e comovente, é preciso um olhar ativo e de bem com a vida.  Agnès Varda tem de sobra esse olhar terno e crítico.  Por isso, tudo o que ela faz acaba sendo tão relevante.

Vi dela, também, além da ficção “Cléo das 5 às 7”, O UNIVERSO DE JACQUES DEMY, documentário de 1995, que é uma linda e informativa homenagem ao grande diretor francês Jacques Demy (1931-1990), que foi seu marido e era um cineasta que celebrava o amor e a vida, em filmes como “Lola, a Flor Proibida”, “A Baía dos Anjos”, os musicais “Os Guarda-chuvas do Amor” e “Duas Garotas Românticas” e até a adaptação do conto infantil “Pele de Asno”.  Que dupla de talentos o cinema francês produziu!  Agnès Varda recebeu o prêmio Humanidade da Mostra e o prêmio especial do júri da crítica, por VISAGES, VILLAGES.  Mais do que merecido.

O documentário JERICÓ, O INFINITO VOO DOS DIAS, de Catalina Mesa, da Colômbia, que já comentei no cinema com recheio, dialoga com VISAGES, VILLAGES, no interesse e respeito à vida nas pequenas localidades, seus elementos constitutivos, e no protagonismo das mulheres.  E, ainda, na sensibilidade no trato da temática. É mais dirigido e planejado do que o filme de Varda, mas também aberto ao que encontra na comunidade.



O PACTO DE ADRIANA


A família tem a função de acolher, proteger, oferecer segurança e afeto a seus membros.  Mas ela também pode ser uma fonte inesgotável de conflitos e problemas de toda ordem.  Dois ótimos documentários partiram de investigações dentro da família, para se surpreender com o que encontraram.  O PACTO DE ADRIANA vai revelando, pouco a pouco, uma pesquisa da sobrinha referente a uma tia muito querida, alegre e bem sucedida, que tinha um passado tenebroso vinculado ao regime de Pinochet, suas torturas e desaparecimentos.  O filme, conduzido por Lissette Orozco, com suas tristes e incontornáveis revelações, é um emocionante retrato de um Chile que precisa ser lembrado, para que a página possa, um dia, ser virada.  A estrutura desse filme é particularmente interessante, porque indica o caminho de uma investigação honesta, cuidadosa, e que oferece todas as chances para que o suspeito se defenda, se explique, se puder.  Sem pré-julgamentos, mas sem medo de conhecer os fatos.

LOTE 35, o documentário francês de Eric Caracava, também parte de uma investigação que se impunha a um irmão que não entendia porque toda a memória de sua irmã, que morreu aos 3 anos de idade, foi apagada, a ponto de não restar sequer uma foto para colocar em seu túmulo.  Aqui é de um tabu, que remete a questões comportamentais de uma época mais moralista e repressora, que se trata.  Um buraco negro que acompanhou a vida de toda a família e que levanta muitas questões de ordem emocional, ética, de valores e comportamentos, e que traz sofrimentos por um passado que insiste em estar presente.  O esquecimento forçado é um trauma que não se apaga.

A questão dos refugiados e a censura ao trabalho artístico, ou à perseguição dos artistas contestadores, envolve o chinês Ai Wei Wei, que esteve por aqui e concebeu o cartaz da Mostra.  Seu filme HUMAN FLOW – NÃO EXISTE LAR SE NÃO HÁ PARA ONDE IR é um impressionante painel do problema, com as dimensões mundiais que ele tem.  Mas o documentário estadunidense AI WEI WEI – SEM PERDÃO, de Alison Clayman, é um complemento fundamental, já que mostra a figura do multiartista, seu trabalho, a censura, a prisão por parte do governo chinês e toda a capacidade de resistência que Wei Wei demonstra, com suas táticas lúcidas, mas corajosas, para enfrentar os problemas.  E, de quebra, funciona muito para quem não conhece bem o trabalho dele.

O próprio cinema foi objeto de bons documentários.  UM CINEMA EM CONCRETO, que também já comentei rapidamente por aqui, encontra um personagem apaixonado, a ponto de construir, tijolo por tijolo, com as próprias mãos, não apenas um cinema (concreto), mas dois.  Filme argentino, de Luz Ruciello.


CINECITTÀ BABILONIA


CINECITTÀ BABILONIA, produção italiana dirigida por Marco Spagnoli, mostra imagens da época da construção dos estúdios da Cineccità, a partir da pedra fundamental posta por Benito Mussolini.  Conta sobre o cinema italiano sob o fascismo, antes da sua grande virada com o neorrealismo.  Buscava-se, então, um cinema menos original, mais calcado no modelo industrial que explorava as estrelas e buscava o luxo e o lucro.  Mas que já dispunha de cineastas do porte de um Roberto Rossellini e de um Michelangelo Antonioni.  Apesar do excesso de preocupação em falar das estrelas da época, as informações e imagens são relevantes.

Em paralelo, A HOLLYWOOD DE HITLER, produção alemã dirigida por Rüdiger Suchsland, mostra o cinema alemão sob o nazismo, sob o comando de Joseph Goebbels.  O painel aqui revelado pelos muitos trechos de filmes e as análises, não deixa dúvida quanto à qualidade daquela indústria de cinema, que tinha plena consciência de sua função política, mas que também sabia entreter com muita fantasia quando queria encobrir a derrota iminente na Segunda Guerra Mundial.  A visão dos dois documentários contribuiu para entender melhor a história do cinema, para além do domínio que Hollywood exerceu durante a guerra.  Mostrou o que se produzia no lado dos que seriam derrotados e seus sonhos de grandeza.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

VENCEDORES DA 41.a MOSTRA

41ª Mostra divulga lista de filmes premiados
Os prêmios foram entregues esta noite, no Cinearte, durante a cerimônia de encerramento desta edição

A 41ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo divulgou, nesta quarta, a lista dos filmes vencedores, com a entrega dos prêmios durante a cerimônia de encerramento desta edição de 2017, realizada no Cinearte, com a apresentação de Serginho Groissman e Renata de Almeida.
Veja abaixo a lista completa dos títulos premiados na 41ª Mostra:

TROFÉU BANDEIRA PAULISTA 2017
PRÊMIO DO JÚRI INTERNACIONAL

Após serem exibidos na 41ª Mostra, os filmes da seção Competição Novos Diretores mais votados pelo público foram submetidos ao Júri Internacional, que escolheu o documentário chileno O Pacto de Adriana, de Lissette Orozco, como vencedor do Troféu Bandeira Paulista (uma criação da artista plástica Tomie Ohtake).
Conheça o filme premiado pelo júri internacional:

MELHOR FILME
  • O PACTO DE ADRIANA (EL PACTO DE ADRIANA), de Lissette Orozco
| 2017 â?? cor â?? 96 min â?? Documentário â?? CHILE

Júri Internacional: Diego Lerman, Eran Riklis, Henk Handloegten, Luís Urbano e Marina Person


PRÊMIO PETROBRAS DE CINEMA

E pela primeira vez, a 41ª Mostra contempou dois filmes brasileiros com o Prêmio Petrobras de Cinema num total de R$ 300 mil, sendo R$ 200 mil para o melhor longa de ficção e R$ 100 mil para o melhor longa documentário. O objetivo do Prêmio é apoiar a distribuição dos respectivos filmes em pelo menos 15 salas e cinco praças ao longo dos primeiros 90 dias de lançamento comercial, no caso da ficção, e 10 salas e três praças no mesmo período, para o documentário. Os títulos selecionados foram avaliados por júris especializados, convidados pela direção do evento, que escolheram as produções (ficção) e (documentário) para receberem os prêmios.

Conheça os filmes contemplados com os prêmios:

MELHOR FILME BRASILEIRO DE FICÇÃO
  • AOS TEUS OLHOS (Aos Teus Olhos), de Carolina Jabor
| 2016 â?? cor â?? 90 min â?? Ficção â?? BRASIL

Júri Petrobras – Ficção: Adhemar Oliveira, Ana Luiza Azevedo, Carolina Kotscho, Di Moretti e Paulo Sacramento

MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO
  • EM NOME DA AMÉRICA (Em Nome da América), de Fernando Weller
| 2017 â?? cor & pb â?? 96 min â?? Documentário â?? BRASIL

Júri Petrobras – Documentário: Alcino Leite Neto, Beto Brant, Cristina Amaral, Eliane Caffé e Marcelo Gomes


PRÊMIO DO PÚBLICO

Além dos prêmios outorgados pelo Júri Internacional, o público da 41ª Mostra escolheu, entre os estrangeiros, o melhor filme de ficção (Com Amor, Van Gogh) e o melhor documentário (Visages, Villages), e os melhores brasileiros nas duas categorias (a ficção Legalize Já e o documentário Tudo É Projeto).
A escolha do público é feita por votação. A cada sessão assistida o espectador recebeu uma cédula para votar com uma escala de 1 a 5, entregue sempre ao final do filme. O resultado proporcional dos filmes com maiores pontuações determina os vencedores.

Conheça os filmes premiados pelo público:

MELHOR FILME INTERNACIONAL DE FICÇÃO
  • COM AMOR, VAN GOGH (Loving Vincent), de Dorota Kobiela e Hugh Welchman
| 2017 â?? cor â?? 94 min â?? Animação â?? POLÔNIA e REINO UNIDO

MELHOR DOCUMENTÁRIO INTERNACIONAL
  • VISAGES, VILLAGES (Visages, Villages), de Agnès Varda e JR
| 2017 â?? cor â?? 89 min â?? Documentário â?? FRANÇA

MELHOR FILME BRASILEIRO DE FICÇÃO
  • LEGALIZE JÁ (Legalize Já), de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé
| 2017 â?? cor â?? 95 min â?? Ficção â?? BRASIL

MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO
  • TUDO É PROJETO (Tudo É Projeto), de Joana Mendes da Rocha e Patricia Rubano
| 2017 â?? cor â?? 74 min â?? Documentário â?? BRASIL


PRÊMIO DA CRÍTICA

A imprensa especializada que cobre o evento e tradicionalmente confere o Prêmio da Crítica, também participou da premiação elegendo Gabriel e a Montanha como o melhor filme brasileiro, Custódia como o melhor dos estrangeiros e contemplando o longa Visages, Villages com o Prêmio Especial do júri da Crítica.
Conheça os filmes premiados pela crítica:

MELHOR FILME BRASILEIRO
  • GABRIEL E A MONTANHA (Gabriel e a Montanha), de Fellipe Barbosa
| 2017 â?? cor â?? 131 min â?? Ficção â?? BRASIL e FRANÇA
Pela forma original de revelar um universo com olhar aberto ao novo e aos encontros. Pela habilidade de unir atores de formação e de vida, pela coragem de promover o diálogo entre as linguagens.

MELHOR FILME INTERNACIONAL
  • CUSTÓDIA (Jusqu'à La Garde), de Xavier Legrand
| 2017 â?? cor â?? 93 min â?? Ficção â?? FRANÇA
Pelo rigor e precisão no desenvolvimento da tensão de uma narrativa que aborda com originalidade um tema incômodo e universal, a violência doméstica.

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI DA CRÍTICA
  • VISAGES, VILLAGES (Visages, Villages), de Agnès Varda e JR
| 2017 â?? cor â?? 89 min â?? Documentário â?? FRANÇA
Por sua crença no poder revelador e transformador da Imagem. Um fascinante road movie que busca e encontra, com humor e poesia, rostos e vidas esquecidos em vilarejos e portos franceses.


PRÊMIO DA ABRACCINE

A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema também realiza tradicionalmente uma premiação que, nesta edição, optou por escolher o melhor filme brasileiro entre os realizados por diretores estreantes (primeiro filme), que, neste ano, foi o longa Yonlu, de Hique Montanari.
  • YONLU (Yonlu), de Hique Montanari
| 2017 â?? cor & pb â?? 90 min â?? Ficção â?? BRASIL

Júri – Prêmio Abraccine: os jornalistas e críticos Daniel Medeiros, Rosane Pavam e Sergio Rizzo


PATROCINADORES DA 41ª MOSTRA
Apresentam a 41ª MOSTRA o GOVERNO FEDERAL - MINISTÉRIO DA CULTURA, GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO e PETROBRAS (com Patrocínio Master). O evento conta com o patrocínio do BNDES - BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL e do BANCO ITAÚ; copatrocínio da SABESP, Apoio institucional do PROAC SP, SPCINE, a parceria do SESC e da CPFL ENERGIA; a colaboração do AUDITÓRIO IBIRAPUERA OSCAR NIEMEYER – SECRETARIA DO VERDE E DO MEIO AMBIENTE, SWISS FILMS, da ORQUESTRA JAZZ SINFÔNICA, MASP, CONJUNTO NACIONAL, INSTITUTO CPFL, HOTEL GOLDEN TULIP e a promoção da FOLHA DE S.PAULO, da GLOBO FILMES, da TV CULTURA, do TELECINE, do CANAL ARTE 1 e da RÁDIO CBN.


Site: www.mostra.org
Facebook: www.facebook.com/mostrasp/
Twitter: @mostrasp
Instagram: @mostrasp

terça-feira, 31 de outubro de 2017

QUATRO DESTAQUES DA MOSTRA 41ª.

   
Antonio Carlos Egypto


A separação de casais com filhos não precisa ser complicada ou traumática, como a que acontece no filme francês CUSTÓDIA, de Xavier Legrand, um dos destaques da 41ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Muitas vezes, o convívio das crianças com as casas e, eventualmente, famílias de pais e mães separados, pode até enriquecer ou diversificar as experiências delas, se tudo se faz de forma pacífica e civilizada. Pode até persistir um vínculo afetivo bom entre os cônjuges que decidiram, cada um, levar a sua vida em outros termos.
Mas quando a separação é litigiosa, resulta em brigas, violência e disputa judicial da guarda e do direito de conviver com os filhos, quem acaba suportando a maior e mais pesada carga são justamente as crianças. Para mostrar isso com clareza e intensidade dramática, CUSTÓDIA coloca em foco o menino que vai a contragosto conviver com o pai, volta para a casa da mãe, fica no meio do conflito, passando recados de um a outro, que não querem se ver. E por aí vai. 
A narrativa é firme, bem construída, o desempenho do garoto é espetacular, nos faz viver o que ele estaria experimentando.  A questão de gênero é bem mostrada.
A solução dramática final parece inevitável, embora esteja aqui carregada nas tintas.  Mas a sequência é muito boa, extremamente tensa, com um clímax emocionante.  O diretor demonstra um talento incrível já no seu primeiro longa-metragem. 


CUSTÓDIA


Fui ver GRÃO, o filme turco dirigido por Semilh Kaplanoglu, porque sou fã da sua trilogia “Ovo”, “Leite”, “Mel”.  O último recebeu o título de “Um Doce Olhar”, no Brasil.  É de uma beleza ímpar, um drama intimamente ligado à natureza, que é mostrada num colorido brilhante.  Pois bem, GRÃO é outra coisa.  O outro lado dessa história.  É uma ficção científica, em preto e branco, que se passa no mundo da Terra Morta, após atravessar-se um muro tecnológico que a separa da Natureza Livre.  Um caos genético está em andamento, a destruição, avançada, e os caminhos ainda possíveis muito complicados de se trilhar.  Ou seja, o cineasta que celebra a natureza e a vida simples, nos outros filmes, se desespera pelo que o ser humano faz com ela e com a manipulação genética, em particular.  Diferente do que se poderia esperar dele, à primeira vista, mas muito bom também. 

SEM DATA, SEM ASSINATURA é um filme do Irã, que coloca um dilema moral que se diversifica, se transforma em outro.  E provoca o tempo todo o espectador, levantando a dúvida daquilo que seria mais relevante num caso que envolve um acidente de um carro com uma moto, um médico e sua mulher, também médica, patologistas forenses, a venda e consumo de carne velha e a morte de uma criança.  A sustentação da história só ocorre porque informações que poderiam ser perfeitamente compartilhadas não o são.  O que parece revelar a dificuldade de estabelecer relações de confiança, mesmo entre pessoas tão próximas, como marido e mulher, tanto na classe alta quanto nos extratos populares.  Uma questão iraniana, dos seres humanos, ou apenas um mote para o roteiro poder funcionar?  Um bom trabalho do diretor Vahid Jalivand, em seu primeiro longa.


UMA QUESTÃO PESSOAL



UMA QUESTÃO PESSOAL, dos irmãos Paolo e VittorioTaviani, da Itália, é um filme simples e bonito.  Passa-se no Piemonte, em 1943, envolvendo dois participantes da Resistência Italiana, na Segunda Guerra Mundial.  Eles se alistam e lutam contra os fascistas, mas têm em comum, além disso, o desejo por uma mulher, Fúlvia.  Estamos no clima de guerra, mas o filme não destaca o lado político dela.  Milton, em meio à guerra, procura por seu amigo e rival, Giorgio, que caiu nas mãos dos fascistas, mas suas razões são de ordem pessoal, como diz o título do filme.  É um trabalho para se curtir com calma, apreciando a beleza do lugar, a filmagem elegante, o desempenho do elenco.  Tem a chancela desses fabulosos irmãos cineastas, que sempre trabalharam juntos e assim continuam, Paolo, com 86 anos, e Vittorio, com 88.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

MAIS DESTAQUES DA 41ª. MOSTRA

                         
Antonio Carlos Egypto


THE SQUARE, da Suécia, vencedor do Palma de Ouro no Festival de Cannes, é dirigido por Ruben Östlund, de “A Força Maior”, 2014.  É, mais uma vez, um ótimo trabalho. O filme focaliza um personagem, curador de museu de arte contemporânea, que está cercado de ícones da modernidade e com eles convive.  Discute e brinca com essa arte de instalações para lá de questionáveis e seus significados fluidos.   Mas também esbarra na crise a toda hora, abordado por mendigos, ladrões, e se complica ao aceitar um vídeo promocional, que explodia uma menina de rua loira, sueca por excelência.
A questão principal, que é o foco do filme, diz respeito à alteridade.  Em defesa de interesses e bens pessoais, tomam-se medidas sem avaliar as consequências que podem trazer a outros.  Não só isso, mexe com resistências e as dificuldades de reparar danos em situações pouco conhecidas ou até então inexploradas.  Essa postura não aparece só na história individual do protagonista, ela fica evidente na sociedade, fechada, insensível, com medo de encarar o sofrimento e os pedidos de socorro alheios.
Em The Square, Östlund diversifica e amplia o foco da questão ética e das fraquezas humanas, alcançando a dimensão social do fenômeno. Dispersa a narrativa, mas alcança um nível maior de profundidade.  Além disso, nos brinda com lindas sequências, como a do protagonista imerso e se movendo numa montanha de sacos de lixo, visto do alto.  O ator Claes Bang e um elenco que rende bem dão vida a uma trama absolutamente moderna, bem humorada, que respira contemporaneidade e tem grande consistência.


24 FRAMES


24 FRAMES, de Abbas Kiarostami, Irã/França.  Uma câmara parada registra o que se passa, por uma janela, atrás de um vidro, dentro de um carro ou no espaço aberto.  São, em geral, lugares em que a natureza e os animais dão as cartas. Parece que nada vai acontecer, mas algo, por menor que seja, acontece. A neve, a chuva, o vento, o voo dos pássaros, ou eles bicando sua comida, cavalos em movimento, uma manada de vacas, alces, um passarinho que canta sem parar, posado numa pilha de madeira cortada, água, mar. Gente passando em frente a uma foto de pessoas, mirando a torre Eifel, é uma exceção.  E um quadro em que elementos dele ganham vida.  Tudo é belo, bem enquadrado e sonorizado.  Surge uma boa música, depois volta-se aos ruídos próprios dos animais, da água ou do vento.  O filme exige de nós algo que cada vez temos mais dificuldade de fazer: contemplar. Num mundo agitado em que queremos fazer várias coisas ao mesmo tempo, para dar conta de tudo, ganhar tempo, em que estamos sempre conectados, fica impossível parar para ver, observar, sentir, deixar fluir a percepção.  Um filme contemplativo como esse, hoje, é uma proposta revolucionária.  Infelizmente, Kiarostami já se foi, mas sua obra continua nos provocando e encantando.

O GOLFO, de Emre Yeksan, da Turquia, se concentra na figura de um jovem que parece distante de tudo e de si mesmo.  Lacônico e pouco reativo, faz lembrar a frase musical de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu”.  Mas há um misterioso acidente ou ato terrorista, que ocorre no mar.  O cheiro se torna insuportável na cidade de Izmir, que tem casas de veraneio e recebe turistas. As pessoas fogem de lá, os sem-teto ocupam casas e praças. Mas tudo parece estar fora da ordem.  Uma alegoria dos problemas atuais do país?  Um trabalho que merece ser conferido.

UM JUDEU DEVE MORRER, de Jacob Berger, que faz parte do “foco Suíça”, é um filme que conta de forma tradicional uma história absurda.  Na pequena cidade suíça de Payenne, simpatizantes nazistas decidem matar um judeu como exemplo, procurando chamar a atenção de Adolf Hitler.  Isso em 1942, num país supostamente neutro.  O alvo é ninguém menos do que o personagem vivido pelo grande ator suíço, Bruno Ganz, que já viveu o próprio Hitler no cinema.  Boa produção, em econômicos 73 minutos, que dá conta do recado.


ZAMA


ZAMA , de Lucrécia Martel, da Argentina, é daqueles filmes que os cinéfilos não vão querer perder.  A diretora filma muito bem e faz trabalhos sérios e pesados.  Aqui o drama é histórico, remete à Coroa espanhola na América e a um oficial que espera ser removido dessas plagas por uma carta do rei, que nunca chega.  Esse é o ponto de partida para se abordar o descompromisso do colonizador com o país que domina ou, talvez, o de qualquer dirigente com seu próprio povo.  Também se discute o mito e o que o sustenta.  O contexto histórico e geográfico podia ser melhor caracterizado, é um pouco confuso acompanhar a narrativa, sem conhecer o livro que lhe deu origem. Mas não faltam boas sequências, uma bela fotografia e o bom desempenho dos atores.





segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DESTAQUES DA MOSTRA 41



DESTAQUES  DA 41ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA SP 

Antonio Carlos Egypto


O MOTORISTA DE TÁXI, de Jang Hoon, da Coreia do Sul, é um belo filme, com uma narrativa ágil e envolvente num tema político: a luta pela democracia em 1980 na cidade de Gwangju, que produziu uma revolta, sobretudo estudantil, violentamente reprimida pelas forças policiais e que foi escandalosamente manipulada pela mídia, na ditadura militar então vigente.  O filme evolui para a aventura e a ação, passa um pouco pela comédia e tem elementos sentimentais na sua bem resolvida trama. Está indicado pela Coreia para a disputa do Oscar de filme estrangeiro.
Mas não espere perfeição.  Há erros de continuidade, como o táxi que recebeu uma série de balas na lataria e que aparece recuperado em cena imediatamenbte posterior.  São pecadilhos que não comprometem o filme, que é empolgante e inteligente.


O MOTORISTA DE TÁXI


À SOMBRA DA ÁRVORE (ou DEBAIXO DA ÁRVORE), o filme islandês, que também é o indicado ao Oscar de filme estrangeiro pelo seu país, inspira-se no clássico curta de animação “Vizinhos” (1952), do canadense Norman MacLaren.  Quem se lembra dele? 
Aqui, a narrativa se concentra na disputa irracional e intolerante entre vizinhos, mas acrescida por uma separação de casal litigiosa, que complica as coisas.  O que pode a mente humana perturbada por incômodos produzir nas relações face-a-face?  No filme de Hafsteinn Gunnar Sigurdsson, as personagens femininas mostram mais desequilíbrios do que os homens.  As feministas podem não gostar disso, mas o filme funciona muito bem e os homens podem ser menos loucos, mas são fracos e incompetentes.

ESPLENDOR, o novo filme de Naomi Kawase, do Japão, tem a delicadeza e a afetividade que o seu cinema costuma apresentar e a capacidade de lidar com os conflitos de forma construtiva.  A perda progressiva da visão para um fotógrafo e as dificuldades que o trabalho de escrever versões de filmes para deficientes visuais envolve são o mote de um encontro renovador entre os dois personagens.  Muito terrno e bonito.

FELICITÉ, de Alain Gomis, nos leva ao Congo, uma cantora e sua bela música, que convivem com a pobreza e com a falta de atendimento digno à saúde que tornam dramática a situação, quando o filho dela sofre um acidente grave.  O filme conta essa história de forma fluida e esteticamente elaborada, mas a cópia exibida estava escura demais, dificultando o fruir dos detalhes, nas cenas noturnas.  Uma grande atriz protagoniza o longa de produção francesa, belga, senegalesa, alemã e libanesa.

HUMAN FLOW  -- Não existe lar se não há para onde ir, do multiartista chinês Ai Wei Wei, que também assina o cartaz da 41ª. Mostra, é uma ampla reportagem sobre o flagelo dos refugiados nos últimos tempos.  O documentário, de produção alemã, percorreu 23 países em busca de mostrar as pessoas e os campos de refugiados e tudo o que envolve essa grande tragédia da atualidade.  Basta dizer que são 65 milhões de pessoas no mundo que não têm um lar ou como voltar a ele.  Refugiados são as pessoas que fogem da guerra, da fome, da miséria, da perseguição política e religiosa.  Gente que não tem escolha e está sendo recebida em fronteiras fechadas, muros e cercas de arame farpado.
O filme teve que editar um vastíssimio material, o que o obrigou a ter de passar rápido por cada situação e não conseguiu encontrar um personagem ou símbolo que alinhavasse a tragédia relatada. Quem costura um pouco os capítulos é o próprio diretor, que interage com seu objeto e é uma figura sensível e humanizadora.


AI WEI WEI no cinema do Shopping Frei Caneca


TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME, o filme estadunidense, de Martin McDonagh, tem uma história fascinante e uma personagem feminina forte e decidida.  Ela cobra das autoridades policiais locais pelo assassinato da filha.  E o faz de modo competente e original, o que cria conflitos saborosos por lá.  O policial alvo das cobranças é um personagem muito interessante, também.  Frances McDormand e Woody Harrelson são os principais destaques de um filme que flui muito bem e mantém o suspense a que se propõe.


O JOVEM KARL MARX é um filme dirigido por Raoul Peck, que esteve há pouco nos nossos cinemas, com “Eu Nâo Sou Seu Negro”.  Aqui, ele se debruça sobre a vida e a obra de Karl Marx (1818-1883), que pode ser considerado, ao lado de Sigmund Freud (1856-1939), a mais importante referência das ciências humanas dos séculos XIX e XX.  Trata também da relação que Marx estabeleceu com seu parceiro de estudos e militância política, Friedrich Engels (1820-1895), de grande peso e importância, de 1843 a 1848, anos de juventude que culminaram nas revoluções europeias e no famoso manifesto do partido comunista.  O filme adota uma narrativa clássica muito apropriada ao seu objetivo, que é também didático e informativo.  E o resultado é ótimo. Correto na história e no estabelecimento dos conceitos que nasciam para influenciar o mundo até os dias de hoje.  Produção franco-germânica.