terça-feira, 17 de outubro de 2017

DICAS DE FILMES DA 41ª. MOSTRA


Antonio Carlos Egypto


Dentre os filmes que constam da programação da 41ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que já pude ver, destaco alguns que merecem atenção.

FEIO (Ugly), da Ucrânia, é um filme que quem gosta de cinema certamente vai apreciar.  Plasticamente belo, explora bem os espaços, a luz, as fortes sensações e sentimentos que procura mostrar.  Não constrói uma narrativa linear, nem deixa tudo claro e compreensível.  Mas encanta pela filmagem, pela estética.  O diretor, Jiri Rechinsky, está em seu segundo longa, primeiro em ficção.  Nascido no Turcomenistão, criado na Ucrânia e vivendo na Áustria, é um nome para acompanhar.  Começa muito bem.


FEIO

SCARY MOTHER, da Geórgia, radicaliza o dilema de uma mulher com talento para a escrita, que terá de escolher entre desenvolver esse talento ou se apequenar numa vida familiar que a reprime.  Os caminhos são difíceis, dentro e fora de casa.  O mercado não é receptivo em tempos de crise.  Só mesmo uma grande paixão para algo acontecer.  A direção de Ana Urushadze, em seu primeiro longa, é competente em revelar o conflito feminino básico entre não só a vida familiar e a profissional, mas entre a acomodação e a transgressão, com tudo que acompanha as decisões radicais.

UM CINEMA EM CONCRETO, documentário argentino, de Luz Ruciello, em seu primeiro longa, dialoga com um dos destaques brasileiros do último É Tudo Verdade: o filme “Cine São Paulo”.  Aqui também descobre-se um personagem apaixonado, sem medida, pelo cinema.  Só que, no caso, pela construção do cinema como espaço de sonho.  E haja persistência para viabilizar concretamente isso!


UM CINEMA EM CONCRETO


JERICÓ, O INFINITO VOO DOS DIAS, de Catalina Mesa, da Colômbia, em seu segundo longa, é um documentário que retrata, com sensibilidade e respeito, a vida de várias mulheres do povoado colombiano de Jericó, seus pensamentos, histórias de vida, suas crenças, sua religiosidade marcante, seu humor e o conhecimento que desenvolvem num ambiente bastante limitado e na pobreza. 

O DIA DEPOIS, da Coreia do Sul, é mais um filme de Hang-Sang-Soo, talvez o mais produtivo cineasta autoral em atividade no mundo.  É um filme atrás do outro (ainda está em cartaz “Na Praia, À Noite, Sozinha”).  São filmes simples, geralmente com personagens conversando em torno da mesa, comendo e, principalmente, bebendo, resolvendo conflitos.  Portanto, de realização rápida.  Só que ele faz muito e faz bem.  Ele sempre encontra um clima apropriado para desenvolver suas histórias e um elenco que convence, ao interpretar gente real, com quem cruzamos amiúde por aí.  Esta narrativa de infidelidade e engano é muito boa.


1945

1945, da Hungria, dirigido por Ferenc Tórók, nos remete a um povoado húngaro que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, se sente ameçado em seu poder local e na posse de bens, pela volta dos judeus sobreviventes da guerra.  A filmagem, muito boa, em preto e branco, remete ao medo, à ganância, ao conflito ético, enfatizando que é o que está na cabeça das pessoas o que conta, não a percepção da realidade objetiva.

CUATREROS, de Albertina Carri, da Argentina, constrói uma narrativa que nos mostra o filme sendo realizado, a partir da descoberta de textos e imagens relacionados ao trabalho do sociólogo Roberto Carri, pai da diretora.  Uma profusão de informações é apresentada verbalmente – verborragicamente, eu diria – enquanto a tela, frequentemente, está dividida em três ou quatro imagens distintas.  Impossível captar tudo.  Ainda assim, é um trabalho documental relevante, que teria ganhado muito com uma edição mais apropriada.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DETROIT EM REBELIÃO


Antonio Carlos Egypto




DETROIT EM REBELIÃO (Detroit).  Estados Unidos, 2017.  Direção: Kathryn Bigelow.  Com John Boyega, Willl Poulter, Algee Smith, Jacob Latimore, Hannah Murray.  143 min.


Quem assistiu a “Guerra ao Terror” (2008) e a “A Hora Mais Escura” (2012) sabe bem o que esperar da diretora Kathryn Bigelow.  Ela faz filmes políticos, muito fortes, de denúncia,sem aliviar na forma de relatar os acontecimentos.  Ela se interessa pela história norte-americana recente e parece ter muita urgência em fazer o público refletir sobre algumas questões pendentes.

“Detroit em Rebelião”, seu atual trabalho, se debruça sobre a tensão racial que tomou conta da cidade de Detroit, a mais populosa do estado de Michigan, em 1967.  Ela procura mostrar que o barril de pólvora que se incendeia nesses momentos retrata uma guerra sem fim que os Estados Unidos não conseguem encarar e resolver.  Pelo contrário, ciclicamente, a situação se agrava.

O filme toma posição clara e expressa de apoio à causa negra, durante todo o tempo, de forma firme e corajosa.  Sem dar margem a nenhuma dúvida.  O que, talvez, até prejudique a reflexão que ela pretende.  Porque ela dá o prato pronto, incontestável.






A abordagem dos fatos relatados no filme é tão marcante e incisiva que se torna quase insuportável.  As cenas de confrontos de rua são agitadas, tensas como a câmera que as capta.  O tratamento que uma polícia quase inteiramente branca dá à população negra de uma região conflagrada é de exasperar os ânimos de qualquer humanista ou cidadão de convicções democráticas.

Para acentuar o absurdo do tratamento policial e o desrespeito às pessoas, o filme se estende durante muito tempo, para mostrar o que acontece, passo a passo, repetidamente.  É revoltante, inaceitável.  Já sabíamos disso, tínhamos entendido.  Mas viver emocionalmente cada momento nos obriga a entrar na pele da população negra, tão estupidamente discriminada. E que o ótimo elenco negro, que sofre diante de nós, reforça enormemente, assim como os atores brancos em seus desempenhos agressivos.

Os julgamentos que ocorrem depois apenas reafirmam a desigualdade e a ausência de equilíbrio de uma justiça também branca.  Nesse ponto, a situação toma ares civilizados, mas nada muda, de fato.  As instituições estão aí para garantir a desigualdade e o preconceito.  Essa é a América, guardiã da democracia e da liberdade, que tanto se apregoa?  Alguma coisa apodreceu nos intestinos dessa nação tão poderosa.  E não é de hoje, como nos mostra Kathryn Bigelow em seu forte filme-denúncia.





quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O QUE VEM AÍ NA 41ª. MOSTRA

                           
Antonio Carlos Egypto


Está chegando a hora.  O evento cinematográfico mais importante do ano, a 41ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, começa dia 19 de outubro e vai até 01 de novembro, sem contar a repescagem, que estende as sessões por mais uma semana, geralmente, aí somente no Cinesesc.  Durante o período oficial da Mostra, 30 espaços acolherão os filmes, entre cinemas, centros culturais e museus.  Serão 394 títulos, incluindo 30 curtas-metragens e os filmes das retrospectivas.

Só de retrospectivas de grandes diretores serão 3.  A primeira, dedicada ao talentoso diretor Alain Tanner, integra  o  Foco Suíça , em que 32 longas recentes da produção do país serão exibidos.  Agnès Varda será homenageada com o prêmio  Humanidade  e terá 11 de seus filmes incluídos na 41ª. Mostra.  O trabalho da cineasta é de excepcional qualidade.  É para não perder essas sessões.  O diretor Paul Vecchiali também ganha retrospectiva e recebe o prêmio Leon Cakoff.  É um trabalho provocador, que merece atenção.






Um belo programa retrô será acompanhar a comédia muda “O Homem Mosca”,  de 1923, protagonizada por Harold  LLoyd, em que ele se pendura no relógio no alto de um prédio, que receberá o acompanhamento ao vivo da orquestra Jazz Sinfônica, no Auditório Ibirapuera.  Um luxo!

O cinema brasileiro terá presença farta na Mostra e pela primeira vez se entregará o prêmio Petrobrás R$100.000,00 para o melhor documentário e R$200.000,00 para a melhor ficção, com júri específico para isso.  Não faltará uma boa safra de filmes latino-americanos, como de hábito se constata na Mostra.  As últimas edições têm trazido filmes entusiasmantes pela qualidade.

Desde que nasceu, o foco da Mostra é o cinema de todo o mundo e a apresentação de novos talentos, cineastas que concorrem ao prêmio principal do festival, desde que estejam em seu primeiro, segundo ou terceiro longas.  E o público vota nos melhores, que serão analisados pelo júri oficial.

Os diretores consagrados, os premiados de festivais internacionais, os indicados de seus países ao Oscar de filme estrangeiro, compõem a Perspectiva Internacional, aqueles filmes que acabam provocando uma grande procura e longas filas em algumas sessões.   Mas quem pode resistir?

Por falar em filas, fazer assinaturas integrais, de 20 ou de 40 ingressos e retirá-los com antecedência na Central da Mostra, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, viabiliza  garantir lugar para as sessões, sobretudo as mais badaladas. As assinaturas estarão à venda na Central a partir de 14 de outubro.


O cartaz da 41ª. Mostra foi concebido pelo artista chinês Ai Weiwei.  Seu filme “Human Flow – não existe lar se não há para onde ir”, que abre o evento, já identifica um dos principais focos que podemos esperar na temática cinematográfica atual: a grave crise mundial dos refugiados.  Além dela, as questões da diversidade, de gênero e do meio ambiente, devem se destacar.  É o cinema pulsando em sintonia com o mundo.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

CHURCHILL


Antonio Carlos Egypto






CHURCHILL (Churchill).  Reino Unido, 2017.  Direção: Jonathan Teplitzky.  Com Brian Cox, Miranda Richardson, John Slatery, Ella Purnell.  106 min.


A produção inglesa “Churchill” não é uma cinebiografia que trate da vida desse líder britânico, cujo nome está indelevelmente marcado na história do século XX e das duas grandes guerras.  É o retrato de um momento específico e decisivo de sua vida política, em que ele estaria entre a decadência e a glória.

Esse período é o que se situa nos seis dias que antecederam a operação da Segunda Guerra Mundial, conhecida como o Dia D, em junho de 1944, em que as forças aliadas organizaram um enorme exército para recuperar o território europeu ocupado pelos nazistas e que seria um passo, arriscado mas definitivo, para a vitória final no conflito mundial.

A figura de Winston Churchill que o filme mostra é francamente desfavorável ao personagem.  Ele aparece velho, alquebrado, resistente e obcecado pelo massacre de Galípoli, na Primeira Guerra Mundial, em 1915, sem querer repetir o erro que levou centenas de milhares de soldados à morte. Preocupado com a humilhação política e o fracasso militar que já havia experimentado, surge como entrave inicial à invasão da Normandia, tendo de ser convencido por Eisenhower, e outros, de que esse passo decisivo tinha de ser feito. E, ainda, tendo que ser submetido à autoridade do rei.

Não há dúvida de que Brian Cox compõe o personagem Churchill, nessas circunstâncias, com raro talento.  A esposa, Clemmie, vivida por Miranda Richardson, está igualmente muito bem interpretada.  Ela, mostrada como pessoa forte, equilibrada, com raciocínio claro e papel determinante na situação.  Já o grande líder britânico está consumido por seus medos e obsessões, num momento deprimente da vida, quando mais se precisaria do seu claro discernimento.






Soa um pouco estranha a fixação na batalha de Galípoli da Primeira Guerra, quando a Segunda já se desenhava como amplamente vitoriosa.  Claro que a preocupação com a repetição de um possível massacre se justificava, mas a obsessão pelo passado, não.  Afinal, para chegar a esse momento da guerra, muitos anos se passaram, desde 1939, e o impacto dos embates do presente era grande demais para ficar em segundo plano.

“Churchill”, ao trabalhar um momento marcante da história por meio da realidade psíquica de um de seus personagens principais, talvez busque uma verdade, no plano interpessoal, que não tem muita cabida.  Para uma questão política dessa dimensão, esse enfoque pouco ou nada acrescenta.


Um drama individual se sobrepõe ao drama da guerra, que estava definindo os destinos da humanidade.  E, ainda que o personagem não pudesse saber que a guerra estava em seus últimos estertores, não é muito crível que Churchill não pudesse entender o sentido coletivo das decisões, numa hora dessas.  Assim, uma boa produção cinematográfica que, embora convencional na forma, poderia alcançar voos muito maiores, perde a força.



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O FANTASMA DA SICÍLIA


Antonio Carlos Egypto




O FANTASMA DA SICÍLIA (Sicilian Ghost Story).  Itália, 2017.  Direção: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza.  Com Julia Jedlikowska, Gaetano Fernandez, Corinne Musallari, Andrea Falzone, Lorenzo Curcio.  122 min.


O ponto de partida do filme “O Fantasma da Sicília” não poderia ser mais ancorado na realidade.  Aborda o sequestro e morte, com requintes de crueldade, do adolescente Giuseppe (Gaetano Fernandez), de 13/14 anos, por ser filho de um membro da máfia siciliana, que se converteu em informante da polícia, fato real ocorrido numa pequena cidade da região, nos anos 1990, que deixou uma comunidade inteira amedrontada e sob o jugo da Cosa Nostra.

A forma como essa história é trabalhada pelos diretores Fabio Grassadonia e Antonio Piazza nos leva ao terreno da fábula, em que a fantasia, a imaginação e o desejo se mesclam de tal maneira aos fatos que tudo se torna indistinguível. 

Da mesma forma, o tempo não é o tempo real dos acontecimentos, mas o que habita o psiquismo dos personagens, em especial, o de Luna (Julia Jedlikowska), a adolescente, amiga de Giuseppe e candidata a ser sua namorada, que não se conforma com seu desaparecimento.  É por meio dela que vivemos a perplexidade da perda, acoplada à fantasia afetiva, amorosa, do despertar do desejo, e à raiva pela ausência de respostas efetivas por parte das pessoas com quem ela convive, em casa, na escola, na rua.




Na imaginação, contudo, as coisas acontecem, ou poderiam acontecer, se os ditames da realidade não se impusessem, inexoravelmente.  A violência do real se opõe à fantasia, seja como desejo de amor e interação, seja como meio de escape e salvação.

“O Fantasma da Sicília” apresenta um esmero técnico, na construção dos planos e sequências, na colocação da câmera, nos belos enquadramentos, nas locações e nos efeitos que cria, buscando transmitir o clima fantasmagórico e de suspense, que foi o caminho escolhido para refletir sobre uma questão tão dolorosa.  O som tem um papel fundamental nisso.  Ele é marcante em todas as cenas, trazendo elementos que nos permitem viver emocionalmente a tragédia de Giuseppe e de Luna.  A música é parte dessa sonoridade, sem se destacar como tal.  E o silêncio acaba sendo muito notado e intenso, quando aparece.

Um bom elenco sustenta essa narrativa convincentemente.  O ritmo do filme é lento e a intensidade das emoções, baixa, o que acaba por acentuar a força e o significado do que está sendo mostrado na tela.  Um bom trabalho do cinema italiano atual, que continua se ressentindo da comparação com o cinema que a Itália praticou nos anos 1960, 1970, que já foi o melhor do mundo.





terça-feira, 19 de setembro de 2017

COMO NOSSOS PAIS


Antonio Carlos Egypto




COMO NOSSOS PAIS.  Brasil, 2017.  Direção: Laís Bodansky.  Com Maria Ribeiro, Clarice Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner.  102 min.



O principal vencedor do 45º. Festival de Gramado é o novo trabalho de Laís Bodansky, “Como Nossos Pais”.  O filme é muito competente, tem grande capacidade de comunicação com o público, merece ser conhecido e apreciado.

A abordagem é de cunho familiar: todas aquelas questões que dizem respeito às relações conjugais, às crises do casamento, às insatisfações, aos ciúmes, às relações com os pais e com os filhos, às histórias que ficaram no passado e que irrompem quando menos se espera.  O que ficou guardado por muito tempo, o que é insinuado e não dito, a busca por verdade no convívio.  Enfim, um painel bastante amplo, que possibilita uma identificação fácil com uma plateia de classe média urbana, nos dias de hoje.

O filme trabalha essas relações sob a perspectiva de gênero, a partir de fortes personagens femininas.  Rosa, em grande interpretação de Maria Ribeiro, e sua mãe Clarice (Clarice Abujamra) enfrentam os desafios de ser mulher, as pressões e vicissitudes da vida, em momentos diferentes de nossa história recente, e se enfrentam.  Elas conduzem toda a trama.  Seus conflitos trazem à tona a complexidade da luta feminina.




Pontos fortes do trabalho são o roteiro de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi, os personagens consistentemente concebidos, sobretudo os femininos, e as atuações do elenco.  Os diálogos são muito ricos, reveladores da dinâmica dos problemas, e bem humorados.  Por falar em bom humor, Jorge Mautner realiza, no papel de Homero, um dos mais bem compostos e engraçados personagens da recente safra do nosso cinema.  Esse pai lunático, completamente fora da realidade, mas cheio de sinuosidades e de amor para dar, é absolutamente cativante.

“Como Nossos Pais” é um drama, mas que nos faz rir em muitas oportunidades.  Não só quando está em cena Jorge Mautner, mas em muitas situações em que a ironia se faz bem presente.  As incoerências que todos temos falam mais alto e provocam aquela identificação com os personagens que acaba por nos envolver intensamente no realismo dos relacionamentos familiares que marca a trama do filme.  E, claro, produz reflexão de boa qualidade.

A diretora Laís Bodansky já tem um trabalho sólido no cinema brasileiro, com destaque para “Bicho de Sete Cabeças”, de 2000.  Aqui, ela reafirma suas qualidades como cineasta.





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BINGO, O REI DAS MANHÃS


Antonio Carlos Egypto




BINGO, O REI DAS MANHÃS.  Brasil, 2016.  Direção: Daniel Rezende.  Com Vladimir Brichta, Leandra Leal, Augusto Madeira, Emanuelle Araújo, Ana Lúcia Torre.  113 min.


“Bingo, o Rei das Manhãs” foi escolhido para representar o Brasil em pelo menos duas premiações internacionais importantes: o Oscar de filme estrangeiro e o Goya, espanhol.

Trata-se, de fato, de uma produção muito bem cuidada, com ótimo elenco e um personagem central que surpreende totalmente.  Afinal, Bingo é inspirado na história do palhaço Bozo, que alcançou uma das maiores audiências das manhãs televisivas, nos anos 1980.  Ou melhor, é inspirado na vida do ator e apresentador Arlindo Barreto, um dos principais intérpretes do palhaço Bozo e que se tornou, na época, o anônimo mais famoso do Brasil.  A identidade do palhaço não podia ser revelada, cláusula pétrea de contrato, e ele se apresentava totalmente produzido, mascarado, irreconhecível.

O assunto, a princípio, parece pouco atraente.  Por que o palhaço que protagonizava o programa infantil de grande sucesso na TV mereceria tanta atenção?  O que funciona bem no filme é justamente mostrar o avesso do avesso, como dizia Caetano Veloso em sua canção.

O ator que encarnava Bingo vinha de uma experiência com filmes pornô, tinha um comportamento promíscuo na vida sexual e era chegado tanto a um uísque quanto a uma carreirinha de cocaína.  Certamente não parece o perfil mais apropriado para representar o palhaço mais amado pelas crianças.

É justamente desse contraste que o filme “Bingo” extrai algumas de suas melhores cenas.  É pela sacanagem por trás do palhaço que ele funciona melhor no papel.  Sem papas na língua, sem moralismos, sem se intimidar ou pretender ser sempre bonzinho.  Em vez da caretice proposta pela marca, o improviso e a criatividade, nada ingênuos, tratando as crianças sem infantilismo ou frescura.  Sucesso total, com direito a Gretchen dançando sensualmente Conga, Conga, na atração infantil.




Essa história é bem desenvolvida no filme pelo diretor Daniel Rezende, com um roteiro muito bem engendradro, por Luiz Bolognesi (que também está, com Laís Bodansky, em “Como Nossos Pais”, em cartaz).  O principal destaque do elenco é, naturalmente, Vladimir Brichta, muito convincente como Bingo, mas Leandra Leal e Augusto Madeira têm um peso importantíssimo no filme.  Todo o elenco está bem afinado e até as participações especiais de Domingos Montagnier e Pedro Bial contribuem para chamar a atenção para a produção.

“Bingo” mostra uma boa capacidade de comunicação com o público, um atributo algumas vezes negligenciado pelo nosso cinema autoral.  Não nivela por baixo, como muitas vezes acontece com as comédidas televisivas que podem alcançar grande público nos cinemas.  É um trabalho equilibrado, que merece mesmo atenção. 

Se desta vez o cinema brasileiro será notado, ou terá algum destaque nas premiações em que o filme está envolvido, é uma outra história.  Se desta vez se fez a melhor escolha para nos representar no Oscar, não sei.  Mas que “Bingo, o Rei das Manhãs” tem muitos méritos, não tenho dúvida.






quarta-feira, 13 de setembro de 2017

NA PRAIA, À NOITE, SOZINHA


Antonio Carlos Egypto




NA PRAIA, À NOITE, SOZINHA (Bamui Haebyun-eoseo Honja).  Coreia do Sul, 2017.  Direção e roteiro: Hong Sang-soo.  Com Kim Minhee, Seo Younghwa, Jung Jaeyoung, Moon Sungkeun.  101 min.


O cinema do sul coreano Hong Sang-soo é ousado, na medida em que ele se permite mostrar cenas e personagens em que, aparentemente, nada acontece e nem se pode dizer que conversem sobre questões profundas.  Além disso, comem e, principalmente, bebem quase todo o tempo, em volta de mesas de conversa, que muitas vezes descambam para o descontrole, motivado certamente pelo consumo do álcool.

No entanto, é um cinema original, cheio de vida e de verdade, de pessoas e situações banais, mas autênticas.  Por que mostrá-las, se não são heróis, figuras extraordinárias, grandes pensadores, filósofos, ou gente revolucionária que, com sua ação, mudam o mundo?  Ou, ainda, que sejam capazes de descobrir o sentido da vida?  Porque a vida é feita assim, de momentos felizes, rotineiros, agradáveis ou incômodos.  E não é isso que se vê todo dia?

A atriz Younghee, personagem de “Na Praia, à Noite, Sozinha”, é bem sucedida no seu trabalho, mas ainda não se encontrou, não sabe direito quem é, o que quer, onde seria bom morar, se vale a pena investir numa relação amorosa, da qual ela duvida, e muitas vezes não tem paciência nos relacionamentos que mantém com amigos e parentes.  Vive uma questão existencial, que esbarra nas pequenas coisas do cotidiano e na falta de um projeto de vida que a impulsione para algum lugar.




Enfrenta, portanto, os aborrecimentos decorrentes dessa condição, as tentativas um tanto toscas de resolver suas pendências, o incômodo tanto da solidão como do convívio social, que não constroem nada de muito concreto.

O filme se torna, assim, melancólico, como sua protagonista.  Hong Sang-soo mantém o clima leve das cenas que vimos em outros belos trabalhos dele, como “HaHaHa”, de 2010, “A Filha de Ninguém”, de 2013, e “Certo Agora, Errado Antes”, de 2015, mas a insatisfação pesa mais aqui.  Pode haver lances patéticos, mas a perda de rumo não chega a ser uma coisa divertida.  A falta de um horizonte acaba se transformando em angústia, deixando no ar decisões importantes que, na verdade, não podem ser tomadas.

Tudo isso se deduz a partir de cenas e sequências que apenas mostram pequenos incômodos ou problemas, ao lado de uma dificuldade atávica para lidar com eles.  Ou de lhes dar a importância que, de fato, eles têm.  Na base de tudo, a necessidade e a falta do amor.  E também uma certa incapacidade de buscá-lo, de lutar por ele.


“Na Praia, à Noite, Sozinha” é o filme de abertura do INDIE 2017 e, assim como outros títulos do festival, será lançado nos cinemas mais adiante.


INDIE 2017


Antonio Carlos Egypto


Acontece agora, de 13 a 20 de setembro em São Paulo e de 20 a 27 de setembro em Belo Horizonte, o importante festival internacional de cinema independente mundial  INDIE 2017, que já está em seu 17º. ano de existência. 

Trata-se de uma mostra mundial do cinema contemporâneo, que prioriza nesta edição produções autorais de uma nova geração de realizadores.  Serão 43 filmes de 15 países, sendo 16 da produção atual do cinema independente.  Há uma retrospectiva do trabalho do cineasta Philippe Garrel, que faz um cinema bonito e sofisticado, artisticamente, com lances experimentais.  Vale a pena conhecê-lo melhor.



Filmes clássicos restaurados também serão exibidos.  Vejam os títulos: A BELA DA TARDE, de Buñuel, O ACOSSADO, de Godard, STROMBOLI, de Rossellini, A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM, de Mike Nichols, e MULHOLLAND DRIVE: A CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch.

O INDIE 2017 é realizado pela Zeta Filmes, SESC-SP e MG, e ocorrerá em
São Paulo no Cinesesc e no Espaço Itaú de Cinema Augusta – sala 4.  O preço dos ingressos é acessível.  A inteira custa R$12,00 no Cinesesc e R$20,00, no Itaú Augusta.  E, em Belo Horizonte, haverá entrada franca, com ingressos disponíveis 30 minutos antes de cada sessão.


É uma oportunidade de usufruir de um cinema de boa qualidade, que alcança diversas partes do globo, e de realizadores inquietos e inovadores, alguns já conhecidos dos cinéfilos paulistanos.



segunda-feira, 11 de setembro de 2017

GLORY


Antonio Carlos Egypto




GLORY (Glory).  Bulgária, 2016.  Direção e roteiro: Kristina Groseva e Petar Valchanov.  Com Margita Gosheva, Stefan Denolyubov, Ivan Savov.  111 min.


Quem viu o filme búlgaro “A Lição”, de 2014, certamente se lembrará da atriz Margita Gosheva, que protagoniza agora “Glory”.  Talentosa e muito charmosa, essa atriz domina a cena quando está nela.  Só para ver seu desempenho se justificaria uma ida ao cinema.  Mas há muito mais a ver em “Glory”.  A dupla de diretores, Kristina Groseva e Petar Valchanov, que são também roteiristas do filme, já tinha mostrado a que veio, no mesmo “A Lição”.  Supostamente, trata-se de uma trilogia, em que “Glory” seria o segundo exemplar.  Mais uma vez, a mão firme da dupla explora um dilema moral.  Desta vez, com mais humor e abordando o papel das autoridades públicas.

Aqui, um humilde trabalhador ferroviário, Tsanko (Stefan Denolyubov), que responde pela manutenção de linhas de trem, encontra em sua ronda muito dinheiro jogado por lá e, honesto que é, devolve a grana.

Em paralelo, ficamos sabendo da corrupção nas altas esferas do Ministério dos Transportes do governo búlgaro, coisa que também é do conhecimento de Tsanko.  Mas ele nunca teve a oportunidade de falar disso a ninguém.  Até o dia em que o próprio ministro lhe entrega um prêmio pelo gesto de honestidade que Tsanko cometeu.




Uma alta figura do ministério, Júlia (Margita Gosheva), é quem vai lidar com o funcionário,   que, além de humilde, é aparentemente retardado, pois tem muita dificuldade de se expressar, gagueja muito.  E um prosaico relógio de pulso funciona como prêmio e como castigo.

Esses personagens e essa situação dão margem a cenas que, o tempo todo, nos provocam e nos fazem pensar.  Mostram como as elites dirigentes se colocam e como lidam com os mais simples, mais pobres ou que apresentam limitações.  O poder corrompe, como se sabe, mas também dessensibiliza, desumaniza as pessoas que, via de regra, desconhecem completamente o sentido do serviço público.  O que menos lhes interessa é servir ao povo, educá-lo, promovê-lo, cuidar de sua saúde e de suas necessidades.  O que vale hoje é a aparência, o marketing cuidadosamente montado para enganar, iludir a população.

“Glory” trata dessas questões, numa trama bem montada, contada linearmente, mas de forma envolvente.  São aspectos humanos relevantes os que estão sendo mostrados.  Quem tem sensibilidade, não vai ficar indiferente.  Não é um filme que prega verdades, nem promove julgamentos, mas os fatos que compõem a narrativa falam por si.

Margita Gosheva, a professora que vive a saia justa do dilema moral de “A Lição” e nos conquista, aqui expõe com ênfase a falta de atenção e respeito com o cidadão, o narcisismo e a dureza, numa vida marcada pelo compromisso e agitação contemporâneos.  Um papel quase oposto ao da professora, igualmente muito bem desenvolvido.




O restante do elenco também está bem, especialmente o protagonista Stefan Denolyubov, cujo papel exige dele muito empenho e modulação precisa, para ser convincente. 

Que venha, portanto, o terceiro filme da trilogia, porque até aqui Kristina Groseva e Petar Valchanov mostraram que, na Bulgária, pode-se fazer muito bom cinema.  Pena que não tenham chegado até o circuito cinematográfico brasileiro outros realizadores de lá.


Quem não se lembra de “A Lição” pode conferir no cinema com recheio a crítica do filme, postada em junho de 2015.



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

FÉRIAS DE CINEMA


Antonio Carlos Egypto


Tirei um mês de férias para viajar.  Estive em várias cidades da Itália e Portugal.  Foi um período em que não entrei no cinema, não vi nenhum filme, nem na TV, nem mesmo no avião.  Mas a paixão pelo cinema não ficou para trás, ao contrário, esteve presente na viagem, com frequência. 

Para começar por Roma, que eu só tinha visitado uma vez há trinta anos, que só de ver aquelas motos tipo lambreta por todo o lado me fizeram lembrar de muitos filmes italianos, em especial, “Meu Caro Diário”, do Nani Moretti. 




A Fontana di Trevi,  imortalizada por “A Doce Vida” de Fellini, que eu revi agora, estava tão cheia de gente que não restou clima possível para interagir com aquela beleza toda.  Mas, enfim, ela continua lá, clicada milhares de vezes a cada segundo.

Melhor foi o passeio à Cinecittà,  muito menos concorrido e cheio de alusões a objetos e filmes fellinianos, com uma ótima exposição histórica do cinema italiano e mundial, seus ícones e filmes representativos, e uma caminhada entre grandes espaços cenográficos, como os que buscaram retratar a Roma antiga, do seriado homônimo.







Em Bolonha, vi uma exposição de fotos e filmes da cidade, no passado e no presente, realizada pela Cinemateca de lá, muito atuante, mas em período de férias, sem programação naquele momento.  Ainda assim, pude conversar com duas funcionárias de lá e apreciar o amplo e antigo prédio em que está hospedada a Cineteca Bologna.

Estando em Bolonha, não poderia deixar de ir conhecer Rímini, a cidade natal do mestre Fellini, à beira-mar.  Lá, naturalmente, tem o parque Fellini, a rua Giuliettta Masina e a tumba onde estão enterrados ambos e o filho que tiveram, que teve só um mês de vida. Um belo monumento que pode ser visto no cemitério de Rímini e foi inspirado em “E La Nave Va”.  Valeu muito a visita à cidade, mesmo com a casa-museu de Fellini fechada, para reformulações e ampliações.




Em Milão, numa visita ao teatro La Scala, encontrei referências e postais do trabalho de Luchino Visconti na ópera e o legado do cineasta sendo lembrado e valorizado.

Em Turim, surpreende pela grandiosidade o Museu Nacional do Cinema, situado no centro histórico da cidade, na Mole Antonelliana, construção que remonta a 1863 e foi  reconstruída em 1961, para celebrar o centenário da unificação italiana, ganhou uma cúspide e um elevador panorâmico, que alcança o ponto mais alto da cidade, creio, de onde se podem tirar fotos que exibem o conjunto urbano de Turim.  Em vários andares, se visita a história do cinema, desde os seus primórdios até os diversos movimentos e gêneros cinematográficos, nesse edifício para lá de imponente.  Foi uma bela surpresa.




Em Lisboa, fui à procura de DVDs de cinema português, em especial, de filmes de Manoel de Oliveira não lançados por aqui.  Agora espero superar a barreira do código de zona europeu, para poder vê-los ou revê-los.


Como perceberam, quando me afasto do cinema é que ele chega ainda mais perto.  Mas estava mesmo na hora de voltar a frequentar a tela grande e refletir sobre as imagens que ela nos traz, deixando para trás o tórrido verão europeu.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

COMENTÁRIOS RÁPIDOS SOBRE FILMES EM CARTAZ


Antonio Carlos Egypto


AFTERIMAGE

AFTERIMAGE, último filme do grande diretor polonês Andrej Wajda (1926-2016), relata a ignominiosa perseguição do regime stalinista polonês ao pintor modernista, Wladyslaw Strzeminski (1893-1952), que, além do grande talento que possuía, era um teórico e um professor brilhante, mesmo mutilado.  Não tinha uma perna e um braço.  Seu conceito de imagem residual  é ao que se refere o título do filme, que não tinha por que estar em inglês. Quando uma verdade é instituída pelo Estado ou por uma instituição poderosa, dessas que podem torturar e decidir pela vida ou pela morte de alguém, a arte sucumbe à opressão, até que o regime caia.  Não sem resistência, claro.  Isso vale para o stalinismo soviético, ditaduras de direita, como as de Pinochet e as militares do Brasil e da Argentina, ou a Inquisição católica, por exemplo.  Mais um tiro certeiro do mestre Wajda, esse filme polonês é uma ótima pedida.  Pena que tenha sido o último dele.




ESTEROS

ESTEROS, dirigido pelo cineasta argentino, estreante em longas, Papu Curotto, é coprodução Brasil-Argentina, que trata do desejo e do relacionamento homoeróticos entre dois personagens, Matias (Ignacio Rogers) e Jerônimo (Esteban Masturini), na infância e adolescência, os caminhos separados em que viveram longe um do outro e o reencontro, após dez anos, na mesma pequena cidade argentina de Paso de los Libres.  Agora eles são bem diferentes do que no passado, mas o sentimento renasce e conflitos emergem.  Trabalho sensível, respeitoso e delicado, sobre a temática LGBT. Premiado no Festival de Gramado 2016 pelo júri e pelo público.



FALA COMIGO

FALA COMIGO, filme brasileiro de Felipe Sholl, primeiro longa dele, tem uma ótima pegada, ao tratar do tema do envolvimento amoroso numa diferença de idade abissal.  Diogo (Tom Karabachian), de 17 anos, se apaixona por Ângela (Karine Teles), de 43 anos, paciente de sua mãe psicanalista, Clarice (Denise Fraga), e é correspondido.  Eles vivem uma experiência amorosa genuína, em que pesem as recriminações da sociedade.  Denise Fraga encarna a psicanalista que fica na defensiva em relação à vida do filho e à sua própria, tentando não perder a pose e nem se abalar. Em vão.  O filme ainda está em cartaz, em algumas salas e em poucos horários, em algumas cidades.  Mas também pode ser assistido no sistema vídeo on demand.